Os Yo La Tengo são uma instituição sonora que nos abençoa com discos e concertos incríveis, ano após ano. This Stupid World é apenas mais um.
This Stupid World, décimo sétimo (inserir emoji com cabeça a explodir) disco de estúdio da banda, é mais do mesmo dirão muitos, enquanto outros tantos rejubilarão com essa informação. O portentoso trio constituído pelos sessentões Georgia Hubley e Ira Kaplan e pelo caçula James McNew está aí para as curvas, lançando mais um álbum incrível que o mundo não ouvirá. Mundo estúpido, portanto, este.
Demoramos apenas doze segundos até a guitarra de Ira reverberar nos nossos ouvidos, já a bateria e o baixo tinham dado a toada base de “Sinatra Drive Breakdown”. A partir daí é um frenesim de distorção, ao mesmo tempo hipnótico e angustiante, entrecortado com momentos cantados por Ira “until we all break”. A música tem sete minutos e meio, mas podíamos muito bem por ali ficar o dobro disso, facilmente.
“Fallout” é a canção “fácil” do disco, ou melhor dizendo, a que mais facilmente cativa quem aqui vem parar sem ideia ao que vai, orelhuda e deliciosa, seguindo o modelo mais direitinho de verso/refrão. Para quem os conhece, é a “Motel 6”, é a “Sugarcube”, é a “Mr. Tough” do disco.
Mais para a frente temos a benção de “Aselestine”, que mostra que a banda também tem o seu lado manta de lã, que até tem sido a sonoridade dominante nos discos mais recentes, sobretudo Stuff Like That There (2015) e There’s a Riot Going On (2018) (que bela crónica da altura, by the way). Acompanhar a voz doce e morninha de Georgia Hubley aquece-nos a alma e o coração na mesma medida que uma salamandra no Inverno.
Para completar o leque de diversidade a que a banda de Hoboken, Nova Jérsia já nos habituou, ouçamos a rockalhada de “Brain Capers”, uma “Apology Letter” que torna impossível não aceitar as desculpas de quem a escreve, e a pura distorção tensa da canção que dá nome ao disco e que nos atira à tromba a dicotomia de “This Stupid World is killing me / This Stupid World, is all we have”. Fechamos This Stupid World, disco do ano, sem sombra de dúvidas, com a etérea “Miles Away”, que nos deixa a navegar no espaço profundo, longe de planetas, longe da luz do sol, somente nós e a escuridão profunda.
Uma banda que não sabe dar um tiro ao lado é de guardar junto ao coração e degustar, sempre e a todo o momento. Garanto que os Yo La Tengo irão recompensar quem assim o fizer.