No Parque Mayer, Vitorino teve casa cheia, sete músicos a acompanhar e breve aparição do irmão, Janita Salomé. Não Sei Do Que É Que Se Trata, Mas Não Concordo, o mais recente álbum de uma das vozes de Abril, foi apenas um pretexto: cinco décadas de percurso artístico têm muito que cantar. E assim o fez o artista.
Era terça-feira de Carnaval e nem a máscara à moda de Zorro faltou ao irreverente início de Vitorino (depois trocou-a por uns óculos), que se apresentou no palco do Variedades também com confetti nos bolsos, aqui e ali arremessados como pós mágicos.
O arranque musical foi com “Fado Alexandrino”, de António Lobo Antunes, que tantas canções lhe escreveu nas toalhas de papel de um restaurante em Benfica, conforme recordou (e a quem voltaria a lembrar, por exemplo, com “Fado da Prostituta da Rua de Santo António da Glória”), seguido pela boa disposição de “Alentejanas e Amorosas”.
Com um registo vocal entre a suavidade sedutora e a exigência mais alta, Vitorino foi desenhando uma noite para cantar e contar. Lá vieram “Uma Pontinha Por Ti”, de Carlos Mota de Oliveira; “O Circo”, encomenda “sobre o centenário de José Saramago” e que dedicou a uma ausente de última hora, Teté, ocupada com o Chapitô, e “Cravos Vermelhos”, escrita por Florbela Espanca nos anos 20. “Foi viver para o Redondo depois de casada, mas foi sempre muito infeliz”, contou.
“Não Sei Do Que É Que Se Trata, Mas Não Concordo”, que dá nome ao álbum, foi marcante e envolveu a história bem-humorada de quem dizia esta frase: “O meu primo Zé Embirra, carpinteiro que andava sempre de fato-macaco. Vi-o em Lisboa de fato e gravata e disse-me: Eh pá, tenho um livro de cheques! E eu respondi: Estás rico! E nunca mais o vi.”
Vestidos de escuro como o cantor, Sérgio Costa (teclas); Carlos Salomé (guitarra e adufe); Paulo Jorge (baixo); Rui Alves (bateria, percussão e voz); Tomás Pimentel (fliscorne); Paulo Gaspar (clarinete) e Inês Vaz (acordeão) foram sempre um porto de abrigo equilibrado e interventivo.
Janita veio cantar “Era Um Redondo Vocábulo”, de Zeca Afonso, e Vitorino lembrou, com “Fado da Liberdade Livre” e risos à mistura, os tempos em que, aos 15 anos, um tio padre, com cinco filhos e 12 netos, o levou à revista, deixando-o impressionado com a sensualidade das dançarinas. “Poeta”, de António José Fonte; “Eu Sou Um Cão Negro”, encomenda que fez a Jorge Palma – a quem pediu “um cão para dar dentadas nas canelas dos fascistas” – foram a transição rumo à parte final. Não sem antes recuar para uma crítica mordaz: “Dadas as circunstâncias, e com tudo o que se passa no mundo, só posso dizer que não sei do que é que se trata, mas não concordo.”
Seguiu-se um dos momentos mais belos da noite: a homenagem ao centenário de Carlos Paredes, a cargo do talento de Inês Vaz. A interpretação diferente para “A Morte Saiu à Rua”, de Zeca Afonso, antecedeu o inesquecível “A Queda do Império” com anúncio de saída e muita gente já a cantar em coro.
A encerrar a noite, dois encores que o público entoou com ar saudoso: “Menina Estás à Janela” e “Vou-me Embora, Vou Partir”. Clássico até ao fim. Irreverente sempre, nos seus 83 anos de frescura. E com toda a gente de pé num final com explosão de aplausos.
Fotografias de Rui Gato












