As guitarras ganharam vida e Ty Segall pareceu voltar a um lugar que conhece intimamente, aquele onde o rock’n’roll deixa de ser apenas música e passa a ser uma forma de estar no mundo.
Há concertos que ouvimos e há concertos que sentimos no corpo. O de Ty Segall foi, para mim, sobretudo uma experiência física, e talvez seja impossível falar dele sem começar pelas guitarras, porque, em determinados momentos, parecia que elas tinham tomado conta de tudo, do espaço, da sonoridade e até dos nossos corpos. A vibração das colunas, o fuzz, as distorções, os feedbacks, os riffs e os solos pareciam ocupar o ar de uma forma quase total, como se a guitarra tivesse deixado de ser apenas um instrumento para se transformar na própria matéria do concerto. Havia uma sensação quase primitiva de que o rock pode ser uma coisa corporal antes de ser intelectual, uma linguagem que não se compreende apenas através dos ouvidos, mas também através do movimento e da própria resposta do corpo, antes mesmo de ser racionalizada.
E o mais fascinante era a quantidade de géneros que cabiam dentro daquelas guitarras, havia blues, psicadelia, surf rock, garage rock, punk, southern rock, hard rock, grunge e, por vezes, até uma espécie de noise, coexistindo sem que nenhum deixasse de ser reconhecível. Havia riffs abertos e guitarras gémeas que remetiam para o southern rock dos Allman Brothers Band, a linguagem bluesy de Hendrix expandida para territórios psicadélicos através do fuzz, do feedback e da improvisação, solos longos e expansivos de blues rock, riffs pesados, repetitivos e saturados próximos do hard rock de Led Zeppelin, e a densidade do heavy metal de Black Sabbath, além da energia crua do punk e, mais tarde, da sujidade característica do grunge, que se tornava ainda mais evidente quando estas músicas passavam para o palco.
Todas essas linguagens atravessavam-se umas às outras, formando uma espécie de colagem sonora. Ty Segall não parecia querer reproduzir aquilo que veio antes, mas incorporar todas essas referências numa linguagem própria, o resultado podia parecer familiar à primeira escuta, mas quanto mais se observava cada camada, mais evidente se tornava a existência de uma linguagem própria a organizar tudo aquilo. Reconhecíamos de onde vinham aqueles sons, mas eles não apareciam como memória, o rock’n’roll surgia como presença, como algo familiar, e ao mesmo tempo, completamente vivo naquele instante.
Havia momentos em que a sucessão de riffs, notas e mudanças de intensidade produzia uma sensação quase de Guitar Hero, como se estivéssemos a acompanhar cada movimento das guitarras, completamente hipnotizados pelas sequências, seguindo mentalmente cada riff, cada solo, cada mudança. Tudo podia tornar-se melodia, ritmo, textura, ruído ou pura força física, podia conduzir a música ou dissolver-se dentro dela. Mas havia uma diferença fundamental, ali a guitarra não era uma imagem nem um jogo, era matéria, volume, vibração, e tudo aquilo estava literalmente a acontecer diante de nós.
Essa dimensão tornou-se ainda mais evidente quando as músicas do último álbum passaram para o palco. Ao vivo, certas referências presentes na gravação tornaram-se mais claras e ganharam outra identidade, sobretudo através da sujidade, da densidade e da distorção. Algumas canções aproximaram-se da sonoridade dos Fuzz, o seu projecto paralelo, como se camadas que estavam mais contidas na gravação fossem libertadas no palco, ganhando uma dimensão mais áspera, orgânica e física.
Foi aí que senti que algumas dessas músicas poderiam beneficiar-se precisamente de mais imperfeição, mais ruído e mais matéria. As imperfeições tornam-se parte da música e criam uma temporalidade quase analógica, como se aquelas guitarras trouxessem consigo a textura de outras décadas, sem nunca se transformarem numa reprodução do passado. Talvez seja precisamente essa imperfeição que mais associo à essência do rock.
Mas existe uma coisa que ultrapassa a própria música, a sensação de que Ty Segall vive o rock com uma intensidade que vai muito além da simples influência musical. O rock parece correr-lhe nas veias e fazer parte da sua própria identidade, as suas influências não parecem estar apenas naquilo que toca, foram absorvidas até se tornarem instinto, e talvez seja isso que lhe permita atravessar tantos géneros sem nunca parecer estar simplesmente a imitá-los. Há uma necessidade quase física de transmitir aquilo que o move, como se aquilo que existe dentro dele precisasse inevitavelmente de chegar aos outros.
E é graças a isto que o concerto ganha uma dimensão quase espiritual, existe uma espécie de linguagem subterrânea feita de guitarras, distorção, ruído, energia e paixão, reconhecida por quem está naquela sala sem que seja necessário explicá-la. Eu senti isso de uma forma muito pessoal, durante o tempo em que estive ali, senti-me em casa, rodeada por pessoas que pareciam reconhecer aquela mesma linguagem. O que acontece no palco passa directamente para o público e transforma-se em movimento, em mosh pit, em corpos que reagem ao som. O rock não é apenas ouvido, mas ocupa o espaço e entra no corpo.
Talvez seja essa a verdadeira força de um concerto como este. Ty Segall não parece tratar o rock como algo a reproduzir, mas como uma linguagem que já faz parte dele e que continua a transmitir a outras pessoas, ele alimenta-se do rock, nós reconhecemo-nos nele, e, enquanto estamos ali, existe uma espécie de circulação de energia entre o palco e a sala. Saí do concerto com a sensação de ter atravessado décadas de rock sem nunca ter saído daquele momento, como se toda essa história estivesse condensada nas guitarras, nos restantes instrumentos, na voz, no corpo de Ty Segall e no público que respondia a cada explosão sonora.
E talvez seja essa uma das coisas mais bonitas que Ty Segall consegue fazer com o rock’n’roll, não nos levar para outro tempo, mas fazer-nos sentir que aquilo que nasceu há décadas continua absolutamente vivo diante de nós. O rock’n’roll não estava morto naquela noite, estava ali, inteiro, ruidoso, distorcido, psicadélico, sujo e impossível de ignorar.
Para quem quiser continuar a viagem pelas músicas do concerto, deixo aqui uma playlist com o setlist da noite:
Texto de Marcela Belz e fotografias por Gonçalo Nogueira






