Os Marquise mostraram a sua habilidade de fazer com que a leveza melódica da década de 80 e a crueza dos anos 90 convivam em harmonia.
No centro de Lisboa, a BOTA tem vindo a afirmar-se como um dos raros lugares onde a cultura ainda acontece em proximidade. Mais do que um bar, este é um espaço onde a música ao vivo, em particular, continua a acontecer por necessidade e não por tendência. Num tempo em que abrir portas a concertos é, por si só, um gesto de resistência, lugares como a BOTA tornam-se essenciais para que a cidade não se reduza a cenário. São eles que garantem a continuidade quando tantos outros desapareceram: do Sabotage Club ao Lounge, sem esquecer o MusicBox ou o Popular Alvalade. Ao longo dos últimos 10 anos a cidade tem-se transformado e perdido espaço à medida que se aproxima de uma ideia de vazio. Mas a cultura encontra sempre forma de se infiltrar e permanecer, num movimento que não é exclusivo da capital e que ecoa noutras geografias do país, como o Porto: cidade que viu nascer e crescer os Marquise. Por esta altura a banda dispensa apresentações. Entre o estúdio e a estrada, os Marquise foram afinando uma linguagem própria, assente no equilíbrio e na escuta atenta do passado. Há na sua música uma memória que se invade e deixa que a leveza melódica da década de 80 e a crueza dos anos 90 convivam em harmonia. É nesse ponto de fricção que a identidade da banda parece construir-se.
Passavam poucos minutos das 21:30 quando a canção “Passado” abriu a noite. Sem introduções e diante de uma sala praticamente esgotada, os Marquise arrancam o seu concerto com um tema que condensa, com particular nitidez, as duas forças que atravessam o seu ADN. Nos versos, uma tensão abrasiva que nos remete para os Nirvana e que contrasta com refrões mais expansivos e luminosos que se aproximam do cancioneiro dos Rádio Macau. Curta paragem para aplausos imediatamente interrompida pelo baixo travado e bateria marcada que iniciam “Ófélia”. E esta é uma música onde acontece algo que Marquise têm e lhes é muito próprio. A banda assenta em quatro elementos – voz, baixo, bateria e apenas uma guitarra – esta última que, em vários momentos, se multiplica e faz esquecer que está sozinha. A clareza e precisão de Miguel na execução de linhas nem sempre simples, são determinantes, e isso, aliado ao facto de todos serem excelentes instrumentistas, eleva a banda para um patamar especial.
Uma nova passagem serve de transição para “Boneco”, rapidamente recebida com a familiaridade esperada. Entre os gritos que trauteiam a melodia, telemóveis que se erguem no ar e um público que canta agarrado enquanto salta, por breves instantes, parecia que a noite na BOTA se tinha transformado num autêntico concerto de música pop. Mas é esse, afinal, um dos efeitos mais curiosos desta banda do Porto: a capacidade de convocar intimidade e euforia em igual medida. E esse fenómeno acontece sem que a vocalista, Mafalda, tenha de saltar, ou dançar freneticamente e por isso tenha de perder a presença sempre discreta, mas marcante, que preenche todo o palco sem nunca o forçar.
Fim da primeira leva de 3 canções e da plateia, alguém grita “Marquise banda de rock”, logo seguida do inevitável “Toca Xutos”. A resposta chega de forma prática: um baixo solitário que podia perfeitamente abrir uma canção dos Xutos & Pontapés, evocando essa herança sem nunca se deixar aprisionar por ela. São as primeiras notas de “Algodão” em mais uma dura descrição da cidade. “É tão bom ver uma sala cheia.”, diz a vocalista no final da canção. Alguém atira de volta, sem hesitar, “E é pequena!”. A troca arranca sorrisos dos dois lados da sala e confirma o óbvio: a boa disposição é uma constante. Há qualquer coisa de paradoxal na forma como a música dos Marquise, tantas vezes melancólica, convive com uma energia profundamente oposta vinda do público. Talvez a ternura e evidente cumplicidade que se sente entre os elementos da banda ajude: um entendimento silencioso foi-se sentindo do início ao fim do concerto. Foram diversos os sorrisos cúmplices entre os 4 e isso contribuiu (e muito) para o espetáculo. “Anjo de água aguarda e vem” é a frase que se ouve repetida. A canção “Não Quero Ser” prova que os Marquise conseguem inverter a fórmula e ligar versos esperançosos a secções mais sérias. “Acordei Mal” surge como um dos momentos mais impactantes do alinhamento. A banda entrega de forma directa e Mafalda, à sua maneira, explora falhas propositadas na voz que evocam o estilo de Manuela Azevedo, enquanto a sua presença e postura subtil em palco faz lembrar a de Ana Deus.
Segue-se novo bloco, e o calor na sala já se faz sentir. “Está muito calor”, diz Matias, da bateria, logo seguido de um sentido “Obrigado por aguentarem!”, que o público parece nem sequer ter tido tempo de questionar. Depois de uma “salva de palmas para a BOTA” – que bem merece -, entre camadas de ruído e tensão controlada, o concerto avança sem abrandar até ao fim.
O público quis mais e gritou sem cessar “QuatroQuatroCinco”. Mafalda admite que a sua voz não está no seu melhor, mas lança o desafio: “quem quiser, que cante”. Estende o microfone ao público, que, entre o entusiasmo e a vergonha, o devolve. No entanto, o encore acontece como se a voz estivesse lá sem que alguém tivesse dado pela sua ausência ao longo do concerto de pouco mais de uma hora.
No final, mais do que um alinhamento de temas, ficou a sensação de um discurso contínuo, pensado e vivido como um todo, acerca da cidade. As canções, muitas vezes ancoradas em imagens urbanas, pareciam devolver à sala uma leitura íntima do espaço urbano, filtrada por uma sensibilidade que oscila entre a observação e a inquietação. Sem recorrer a grandes gestos, a banda construiu um concerto que se afirmou pela consistência e forte identidade. Talvez não tenha havido lugar mais adequado para esta noite do que a própria BOTA, um espaço que, como dito no início, à semelhança da música dos Marquise, resiste pela insistência e pela forma como continua a dar corpo àquilo que a cidade tende a apagar.
Texto de Luís Toscano, fotografias de Gonçalo Nogueira








