No MEO Arena, em Lisboa, os Tame Impala confirmaram aquilo que o último Deadbeat já fazia prever: as guitarras e o psicadelismo do começo são já miragem, a pista de dança e o transe coletivo é agora o objetivo.
Cerca de 15 anos depois de concertos palcos secundários e de um enorme culto indie, Kevin Parker e companhia são hoje uma máquina de massas capaz de esgotar arenas com naturalidade. O curioso, antes de irmos à música, é observar o público: há efetivamente fãs de longa data, que ainda carregam Lonerism no ADN, mas o grosso da plateia é formada por uma geração mais nova que chegou via Currents e nunca mais desligou.
Deadbeat, já se sabia, estica a corda até se aproximar do house, embora sem nunca abandonar totalmente a herança mais pop dos anteriores dois discos. Ao vivo, essa transformação torna-se explícita: menos contemplação, mais corpo. O palco oval, pensado como experiência coletiva, reforça essa ideia de comunhão – não tanto espiritual, mas física, rítmica, quase clubbing, mesmo que numa grande arena.
A adesão foi imediata e quase sempre total. A pista, melhor termo que plateia para a noite de ontem, funcionou como um organismo único, sempre em movimento. “The Less I Know the Better”, “Elephant” ou “Let It Happen” continuam a ser pontos de encontro geracional, mas são os temas novos que empurram o concerto para a frente, sem nostalgia excessiva.
Pelo meio, um espetador sente-se mal, é assistido, Kevin Parker repara e faz uma pausa – elogia Portugal e o público português, pois claro. Depois, numa transição para um ‘micro palco’ instalado no centro da arena, o músico é acompanhado visualmente numa ida às instalações sanitárias – há um cuidado permanente com a imagem, com o que é transposto para o ecrã, mas o destaque maior para além da música tem de se centrar no jogo de luzes, permanentemente brilhante.
No meio de tanto aparato – lasers, painéis de luz, sincronizações milimétricas – há, contudo, uma certa distância emocional. Tudo funciona, tudo encaixa, mas raramente transborda. A sensação de risco, de imprevisibilidade, de banda “em carne viva” dilui-se numa engrenagem perfeita. Mas ninguém pareceu particularmente preocupado com isso, porque o objetivo era outro: dançar.
Nesse capítulo, os Tame Impala continuam praticamente imbatíveis: conseguem ser, ao mesmo tempo, banda de culto e fenómeno transversal, psicadelismo e pop de massas. Em 2026, ouvem menos Led Zeppelin e mais música house. E está tudo certo, mesmo que alguns, onde o escriba se insere, preferissem mais guitarras e menos maquinaria digital.
Fotografias de Inês Silva


















