Trinta anos depois, Alternative Prison continua a soar com a mesma intensidade. No Hard Club, os Primitive Reason não se limitaram a revisitar o passado, reacenderam-no, transformando nostalgia em pura combustão coletiva.
Assim que soube do regresso aos palcos dos Primitive Reason, em jeito de celebração dos 30 anos de Alternative Prison – o primeiro e, para mim, o melhor disco da banda – acendeu-se uma centelha de nostalgia dentro de mim e não podia perder esta viagem. Como se isso não fosse motivo suficiente, havia ainda a cereja no topo do bolo, o regresso, também, de Brian Jackson, Guillermo de Llera e Jorge Felizardo, membros fundadores da banda que não tocavam juntos desde 1998. Esta era uma viagem aos anos 1990 com tudo incluído, mas já lá vamos.
Para este par de concertos que aconteceram nas duas principais cidades deste país à beira-mar plantado, os Primitive Reason convidaram duas bandas emergentes da cena alternativa nacional, os Bad Tomato e os Hetta. Coube aos Bad Tomato abrirem as hostilidades enquanto o público ia chegando à sala 1 do Hard Club, aproveitava para comprar um copo de cerveja e ficava a conhecer um dos projetos emergentes nacionais que tem vindo a destacar-se. De salientar as datas que fizeram pela costa leste norte americana no início deste mês, bem como a presença confirmada no prestigiado festival Mad Cool, que acontece no país vizinho, no dia em que atuam nomes como David Byrne, The Black Crowes, Pulp e Nick Cave, entre muitos outros. Tudo isso serviu de combustível para que este quarteto enérgico, que apresentou um som coeso que percorre vários estilos musicais, desde o post-punk até à música eletrónica passando pelo hardcore, oferecesse uma atuação irrepreensível, puxando o público para junto do palco, curioso e, diria até, ainda que de uma forma tímida, conquistado. Certamente os vamos vê-los e ouvi-los muito mais vezes.
No compasso de espera entre bandas, dei por mim a pensar que nunca tinha visto os Hetta num palco com esta dimensão, onde a distância entre banda e público não é tão imediata, sendo um pouco mais distante do que o alcance de um braço. Tenho acompanhado o percurso deste projeto do Montijo e fico satisfeito por ver os Hetta a crescerem enquanto banda e a conseguirem alcançar mais público, mais pessoas que os ouvem e, quiçá, os veja e ouça como eu, com enorme amor. Acredito que grande parte do público que ia compondo de forma generosa a sala 1 não conhecia, ainda, os Hetta e, por isso mesmo, foi um exercício interessante observar a reação do público que esperava outro género de sonoridade. O choque inicial foi-se diluindo e tomando diferentes contornos, desenhando novas feições nos rostos das pessoas. Como habitual, o concerto foi mais um daqueles momentos explosivos característicos deste quarteto, onde a energia se confunde com a sonoridade poderosa e demolidora. Tudo isso, ajudou que a curiosidade do público se transformasse em interesse e apreciação. Com o avançar do concerto, o headbanging começa a tomar o corpo de alguns e as ancas de outros. No fim, fica a ideia de mais alguns fãs, mais algumas pessoas que acabaram por ceder ao poder encantado deste projeto do Montijo.
Eis que chega o momento pelo qual todos esperam. Todos queremos o mesmo, ver, ouvir, sentir, recordar momentos incríveis que são agora apenas memórias. Queremos reviver memórias embaciadas pelo tempo e misturá-las com a varinha mágica do presente para que se tornem inesquecíveis no futuro. E é apenas isso que esperamos desta noite, eu e todas aquelas pessoas que lotam o Hard Club. Alguns de vós pode achar demasiado ambicioso, no entanto, falamos de uma das bandas que marcou profundamente a música nacional nos anos 1990. Se existe alguém capaz de nos dar o que queremos são eles, ainda por cima, com a nuance de serem os elementos fundadores que estão esta noite em cima do palco. Assim que soam os primeiros acordes de “Bobo Grey”, tema que deu início a esta viagem, a sala entre num movimento em espiral, criando uma galáxia única que nos transporta para a dimensão que tanto expectávamos. As memórias tornam-se nítidas e transformam-se em emoções reais, a cada nova canção o nosso corpo produz endorfinas em altas doses e é um verdadeiro prazer este momento mágico. Cada rosto ri, extasiado, cada corpo vibra de emoção, não há tempo a perder e cada segundo do concerto é vivido ao máximo. O álbum Alternative Prison é visitado na íntegra, havendo mesmo a estreia ao vivo do tema “Sancaro, the Death of the Gaupameis”, honra concedida ao público portuense. É incrível a paleta sonora eclética dos Primitive Reason, ora estamos a curtir um ska como de repente estamos num momento de headbanging acompanhando riffs metal demolidores, ora o reggae toma conta da sala e uma onda de paz e amor nos envolve. Quando a banda se retira pela primeira vez do palco, a sala está completamente em fogo e apenas por breves segundos não há música. Quando regressa, a inevitável “Seven Fingered Friend” eleva a loucura a um nível absurdo, cabendo à insana “Born From Fear” fechar esta noite perfeita. Depois de tudo silenciado, a sala continuava na sua espiral mágica e foi preciso algum tempo para que a galáxia desaparecesse e tudo voltasse a ser como dantes. Menos as novas memórias, essas, que provocam arrepios e sorrisos rasgados que levámos todos para casa e que ficarão para sempre.
Fotografias de Jorge Resende



































