Reportagens

Super Bock em Stock 2019 – Dia 2

A edição de 2019 do Super Bock em Stock acabou com o regresso triunfante de Slow J aos palcos e um concerto magistral de Helado Negro.

E assim se passou mais um Super Bock em Stock. A edição de 2019 foi variada e para todos os gostos. Bons concertos no primeiro dia, no segundo a mesma receita. Como balanço, podemos dizer que o mais conhecido “festival de inverno” da capital portuguesa não perdeu o balanço e continua a trazer ao centro da cidade pequenas multidões de gente amante de música. A moda dos festivais de verão não se esgota nessa estação. É bom sinal. E assim, na derradeira noite de espetáculos, o Altamont lá foi deambulando por várias salas, espreitando o que desejava espreitar, acumulando quilómetros nas pernas e satisfação nos ouvidos. E assim, de barriga confortavelmente cheia, damos por finda a missão com mais um relato dos concertos a que assistimos. De copo de Super Bock na mão, fazemos um brinde à música, desejando ainda que estejam sempre ambas ao nosso redor!

Escondido atrás da mesa de mistura nas traseiras do Capitólio, Keso deu início à noite com um set de hip-hop puro e duro. O produtor e rapper trouxe ao palco os beats exóticos e sombrios de Thalatha Khobzat para um público pequeno mas fiel. Ao mesmo tempo, na Sala Santa Casa, os Zarco apresentavam Spazutempo, lançado há pouco mais de um mês, banhando-nos em synth-pop e rock psicadélico. Desde as erupções technicolor de “Vitamina Z” à aos tropeções rítmicos de “Spazutempo” foi por pouco que o grupo lisboeta não deitou a Garagem da EPAL abaixo. A adição de instrumentos como o clarinete confere ao som dos Zarco um travo jazzístico que os distingue dos seus pares do indie rock português.

A voz é de uma delicadeza a toda a prova. Vive em Lisboa há dois anos, mas já se sente em casa. Quem a ouviu ontem na sala EDP totalmente lotada, soube recebê-la como nossa. É uma menina ainda, e dá pelo nome de Tainá. Achamos que fazem bem em fixá-lo, por isso repetimos: Tainá. A música que faz, que canta e que toca (a versão de “A Paz”, de Gilberto Gil, é deliciosa) surpreende, de tão íntima. Evoca paisagens do seu país natal (“Da janela vê-se o Corcovado / O Redentor, que lindo”) e possui o charme de quem, ainda com esgares de pura inocência, se entrega com alma àquilo que faz. Como nos foi contando, não tem terra fixa, nunca teve outra que não o mundo, sempre longe e perto do seu coração indígena. Tainá apresentou-se apenas de voz e violão, exceção feita ao amigo e convidado saxofonista Bernardo Redol Soares e ao bem conhecido Janeiro, e esteve impecavelmente bem. Estiveram todos. O público também, entoando a espaços o que Tainá ia cantando. Os dois (Tainá e Janeiro) cantaram o tema que ambos gravaram no primeiro disco da artista, saído este ano, há muito pouco tempo. Foi assim que findou o concerto. Nas nuvens. Ela e nós.

Peregrinamos rumo ao Coliseu dos Recreios, aguardando ansiosamente por Curtis Harding. A fusão do norte-americano de R&B e Soul com rock de garagem remete-nos para uns dourados anos sessenta para onde fomos brevemente transportados. Usando “The Drive” como de rampa de lançamento, a partir de então foi subir sempre a pique. Entre solos de guitarra e refrões de bradar aos céus, o músico deu um espetáculo de contrastes, entre a crueza quase punk do seu primeiro disco e a contenção madura do segundo, provando que o legado de James Brown está em boas mãos. Como não podia deixar de ser, antes de se despedir, tocou “Need Your Love” com o vigor de quem a está a tocar pela primeira vez. A entrega de Harding em palco faz com que os seus concertos sejam sempre uma paragem obrigatória em qualquer festival que tenha o seu nome. 

Nasceu com nome de Rei do país irmão. Roberto Carlos Lange, mais conhecido como Helado Negro, chegou um pouco atrasado, mas a tempo de nos proporcionar um belo concerto. Informou, logo de início, que iriam tocar o recente “This Is How You Smile” de uma ponta à outra, introduzindo pelo meio algumas canções com mais idade. Este seu lado mais melancólico, mais reservado (a lembrar, talvez também pela língua e pelo sotaque, o nosso bem apreciado Devendra Banhart) assenta bem em ouvidos mais outonais. Há, em muitas das suas canções, uma aura de mistério e de encantamento que lhes acrescentam qualidade apreciável. São boas de ouvir, tanto em disco como ao vivo. Impressionam pela estranha beleza em que se fundam. Com apenas três músicos em palco, Helado Negro terá dado um dos concertos mais bonitos da noite, que gostaríamos de ter ouvido integralmente. Só que, no outro lado da avenida, tocava Josh Rouse e também queríamos espreitar. Retardámos o máximo que pudemos, e lá acabámos por sair um pouco contrariados…

Talvez um dos concertos mais aguardados de todo o festival, Slow J mostrou-nos o porquê de ser um dos rappers mais aclamados do país. Sozinho, num palco quase vazio, o rapper de Setúbal teve o Coliseu dos Recreios na palma da sua mão mal o pisou. Podia ter ficado em silêncio o concerto todo: o público já conhece bem todas as letras, mesmo as do fresquíssimo You Are Forgiven. Em conversa com o público, Slow J mostrou-se agradecido, falou-nos da morte do avô, do nascimento do filho e do resultado desses dois acontecimentos na matéria lírica do novo trabalho. O músico não estava sozinho, no entanto, trocando rimas com Papillon em “FAM” e deixando Francis Dale e o seu professor de música Nuno Cacho fazer um arranjo comovente de “Lágrimas” para guitarra acústica e guitarra portuguesa respetivamente. “Às Vezes” pecou por não ter o verso de Nerve mas reclamar disso é vão. O regresso de Slow J aos palcos foi um triunfo. Deixemos o rei sentar-se confortavelmente no seu trono.

Josh Rouse tem andado afastado dos tempos áureos de 1972. Acabou por aterrar na edição deste ano do Super Bock em Stock por via da infelicidade do cancelamento do cabeça de cartaz Kevin Morby. Tem também andado afastado de Portugal (talvez dez anos, como nos disse ontem, tempo suficiente para nos termos esquecido dele, como também ontem sugeriu como eventualidade mais que provável) e o regresso, afinal, acabou por acontecer para surpresa nossa e dele. Continua, como bem sabemos, a ser bem capaz de fazer bonitas canções, algumas até bem orelhudas. Disse-nos que mudou, mas sinceramente nota-se pouco. Talvez isto que dizemos seja um elogio. Ou talvez não. Decida quem o quiser fazer. Para nós, o concerto foi agradável, talvez um pouco morno, embora revelando sempre um músico adulto, nunca se entregando à pop mais descarada. Josh Rouse sabe o caminho que resolveu trilhar, e raramente dá um passo em falso. Tivemos direito a canções de Natal (três, se bem as contámos) e ainda a um ou outro hit mais antigo, como “Slaveship”, pois claro. Festão garantido, tudo de pé, Tivoli inteiro a dar à anca. Bom regresso a Lisboa, portanto.

Para o ano haverá mais, seguramente. Até lá, muita música correrá pelas salas de Lisboa e pelos nossos ouvidos, estejam eles onde estiverem. Resta esperar. Até lá, boa música, bons discos, bons concertos!

Texto: Miguel Moura e Carlos Lopes
Fotos: Inês Silva

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