Os Summer of Hate são uma banda nascida a norte do país, mais concretamente em Espinho, e já andam nisto há alguns anos, embora sempre tenham estado abaixo do nosso radar.
Agora, com disco fresquinho lançado já em 2026, é hora de lhes darmos atenção. Blood & Honey é o seu terceiro disco (o segundo de originais, já que a estreia foi um registo ao vivo) e promete dar um novo impulso ao percurso desta malta. A imagética e parte do som da banda atira-nos para os universos mais pesados, mas é bastante redutor achar que esta é uma banda de metal. Na verdade, os Summer of Hate são uma amálgama de muita coisa, e a sua mestria está na forma como tudo é combinado nas doses certas.
Este mais recente disco está dividido emocionalmente em duas partes: Blood, mais negra e agressiva; e Honey, mais soalheira e a mostrar mais a vertente pop do grupo. Tanto assim é que as duas partes foram gravadas com produtores diferentes, em estúdios diferentes. O que é curioso é que consegue haver alguma coesão entre as duas partes. Mesmo com registos algo diferentes, há ali uma linguagem comum, uma base estética que, juntamente com a voz bonita e cativante de Laura Calado, une as pontas de forma harmoniosa.
Quanto ao som, bem, por onde começar?
Talvez pela deliciosa discrição que o grupo dá de si próprio na sua página de bandcamp: “os Summer of Hate são uma banda de shoegaze experimental que explora as fronteiras do psicadelismo, da canção pop e da world music para te fazer querer amar outra vez e tomar posse dos meios de produção”. Estou dentro.

Se, no primeiro álbum – Love is Dead! Long live love-, de 2022, o elemento shoegaze estava mais dominante, aqui é o psicadelismo a força mais poderosa. As canções são longas e convidam à viagem, mas a energia é igualada pelo sentido exploratório e pela visão melódica. Ou seja, não estamos perante divagações inconsequentes, mas sim percursos estimulantes que nos vão mantendo sempre ligados ao que está a acontecer. Outro elemento preponderante, sobretudo na primeira parte do disco, são as influências de música árabe, um toque de exotismo de norte de África que dão um novo ponto de interesse e funciona muito bem. Há momentos em que nos lembramos dos suecos Goat, e isso só pode ser bom. Ouçam-se as estupendas “El Saif”, a misteriosa “Mayura” ou a declaração de intenções que abre o disco, a faixa título “Blood and Honey”.
Mas nem só de sensações aventureiras vive este disco. A segunda parte, onde está o mel, mostra que os Summer of Hate também sabem fazer pop, dream-pop e os seus primos. “Além”, a única música de Blood & Honey cantada na língua de Camões, é disso um belo exemplo, uma canção bonita e emocionante, em que o ambiente lisérgico é aplicado mais na produção do que na própria composição.
Blood & Honey é um disco ambicioso e resiste bem a esse teste, fazendo funcionar influências diferentes que são canalizadas para um tronco comum. Talvez a chave esteja nos arranjos, na composição ou na produção, que muitas nos vezes nos remetem para uma linguagem vista no rock alternativo dos anos 90, e que nos agrada sobremaneira.
Os Summer of Hate andam na estrada, com concertos por cá (Guimarães, Braga, Coimbra e Lisboa em Abril) mas também com datas marcadas para o Reino Unido. Se os apanharem, aproveitem. Quanto ao disco, é uma boa surpresa da música nacional em 2026.