2026 deu-nos Sr. Chinarro em dose dupla! Las Fuerzas y Los Cuerpos aí está, pronto para a luta a favor da paz!
É muito difícil vê-lo parado, sem produzir, sem dar concertos, porque isso não é da sua índole. Há muitos anos que a sua irrequietude é histórica. Por isso, não é de estranhar que em 2026 tenha lançado dois álbuns, um de versões de temas antigos dos seus quatro primeiros trabalhos, e este Las Fuerzas y Los Cuerpos, todo ele composto por temas inéditos. Nós, que temos por Sr. Chinarro um apreço infinito, aplaudimos de pé essa prolífica postura, e sorrimos perante os novos temas, cheios de ritmo, enérgicos, crus, bem distantes do anterior Cal Viva (2024), bem mais contemplativo, orquestral e melancólico. O disco que hoje sai para o mundo poder conhecê-lo vem cheio de ganas, com guitarras afiadas à maneira de muitos dos heróis de Antonio Luque, o nome por detrás da máscara artística chinarra, figura ímpar da música indie do país vizinho. É um disco de banda, onde se nota que o prazer das composições reside também em tocá-las juntos, António e os seus companheiros de estúdios e de estradas. É uma pena que esses caminhos nunca venham dar a Portugal. Portugal permanece às escuras perante uma realidade musical tão luminosa como é a de Sr. Chinarro.
O disco abre de forma pujante com “Cantautor Foráneo”, uma das composições mais contundentes da sua carreira recente, sobretudo pela vertente lírica, pelas palavras que assustam por serem mais reais do que muitos imaginam. Continuamos presos às novelas da vida e distraídos com algoritmos parvos e inúteis da santa internet de todos os dias, ámen! Aqui, fala-se de tragédias presentes e anunciadas, do avanço do neofascismo na Europa, de que resulta uma atitude politicamente condenável, sobretudo porque consciente do que se está a passar. Este tema é definidor, em alguma medida, de todo o conjunto de canções do álbum, uma vez que revela o tom crítico de Las Fuerzas y Los Cuerpos. É uma canção que deveria implicar uma atitude de receio coletivo, um alarme generalizado, que muitos (demasiados) parecem não querer reconhecer. “Se anunciam los temporales”, Canta Sr. Chinarro, até porque há “Nazis en el Mediterráneo”, mesmo à porta das nossas casas comuns.
O primeiro avanço que ouvimos, há já algumas semanas, deste novo LP de Sr. Chinarro foi “El Deseo del Genio”. É um excelente tema, demorado, sem pressa em fazer-nos chegar ao refrão orelhudo que contém. Brinca com a história que todos conhecemos do génio da lâmpada, o Aladino dos nossos desejos e sonhos infantis. Apresenta-se como uma extraordinária metáfora dos tempos de agora, mais perdidos do que ganhos pela azáfama da vida que vamos querendo construir, perdendo-os sem nos darmos conta disso, tal a ilusão de estarmos a vivê-los intensamente. É uma canção desiludida, insatisfeita porque reveladora do desperdício da nossa própria existência. A ilusão condena-nos a uma triste e quase fúnebre realidade. O génio, em consciência, terá de rir-se da nossa medíocre e patética figura. E se a letra da canção é de uma nostalgia que exige reflexão, a música avança por caminhos opostos, é robusta, forte, repleta de riffs de guitarras marotas, um baixo sabedor do ritmo que impõe e uma bateria que não cede a contemplações.
Para nós, alunos atentos do mestre Sr. Chinarro, é curioso entender que o som deste Las Fuerzas y Los Cuerpos talvez não fosse como é se não tivesse havido, tempos antes, a gravação do já aqui referido e analisado El Año de la Pera. Esse disco, saído em abril, se a memória não nos falha, serviu como ensaio perfeito para o trabalho que a própria banda sabia que iria realizar mais tarde. Gravando de novo canções antigas com um som mais limpo, musculado e atual, esse exercício possibilitou a manutenção desse tipo de som, que assenta como uma luva da melhor pelica nos temas roqueiros do álbum presente. Como se todos os membros da banda, Antonio incluido, naturalmente, tivessem feito uma excelente pré-época e estivessem muito bem preparados para disputarem o troféu da nova temporada, um Real Bétis sonoro condensado, em que cada um sabe na perfeição o que fazer com os seus instrumentos. Daí a goleada que é Las Fuerzas y Los Cuerpos.
Vamos a outros destaques. “El Burro de la Plaza de España” é das mais melódicas e belas canções do álbum, que ganha muito com o impulso dado pela voz clara e pura da amiga de sempre Sandra Rubio. “Mi Palmera” é solta e viva, contagiante e surpreende pelo ritmo que lembra, a espaços, o rockabilly dos anos 50 do século passado, extraordinariamente fácil de captar a nossa atenção. A parte instrumental do início de “El Viaje que Puede Esperar” lembra os The Cure, embora depois se solte para o estilo inconfundível de Chinarro. Aliás, são algumas as referências que se notam em Las Fuerzas y Los Cuerpos, até em algumas das letras cantadas, como é o caso de “¿Qué Verde?” citando (ou quase) o verso inicial do famoso poema de Federico García Lorca, “Romance Sonámbulo”. “En Pompas” é desordeira e ritmada e a derradeira “Minuto de Silencio” é uma clara canção Chinarra, intrinsecamente sua, idiossincrática como tantas outras do álbum. A identidade de Antonio Luque está toda cá, em todo o disco, embora mais fresca, vitalizada, a apontar para um futuro sonoro que está para durar. Que assim seja! Adorámos o “la la la” final do álbum. Soa a companheirismo, amizade, camaradagem.
Para chegarmos ao fim, que este caminho escrito já vai longo, breves notas curiosas: continua a haver referências a animais em mais um álbum de Sr. Chinarro. Nunca falha, esta vontade animalesca de referir quem habita connosco este planeta. Surpreende, embora não seja novidade absoluta, a quantidade de referências a nomes de pessoas, locais, entidades em Las Fuerzas y Los Cuerpos. Mencionemos apenas alguns: Cuenca, África Korps, Catherine Zeta-Jones, Katharine Hepburn, Hollywood, El Corte Inglés, Racing de Santander e, pois claro, o amado Real Betis (“olé”).
Que sigas sempre em frente, Sr. Chinarro! Não havendo outro caminho possível, terás mesmo de fazê-lo. Nós iremos contigo, compañero!