O disco de estreia da dupla canadiana Softcult, When a Flower Doesn’t Grow, transporta-nos para o ambiente shoegaze e até grunge dos anos 90.
“Quando uma flor não desabrocha, corrige-se o ambiente em que ela cresce, não a flor.” É a partir desta citação do autor holandês Alexander Den Heijer que a dupla canadiana Softcult vai buscar inspiração para o seu trabalho de estreia.
Este é o primeiro disco do duo composto pelas irmãs gémeas Phoenix e Mercedes Arn-Horn, inspirado no shoegaze dos anos 90 e também no grunge, com uns pozinhos de rock alternativo. A dupla assume também forte influência da cultura riot grrrl e de independência na produção.
When a Flower Doesn’t Grow arranca com “Intro”, uma faixa de forte inspiração shoegaze, seguindo-se, na mesma linha, ainda em sonho etéreo, a excelente “Pill to Swallow”. Em “Naive” podíamos estar igualmente a ouvir My Bloody Valentine ou Slowdive, o que não deixa de ser um excelente cartão de visita para os apreciadores do género. Seria já um disco interessante se fosse apenas um álbum de Shoegaze. Mas, a partir daqui as coisas começam a animar.
A inspiração Riot grrrl, ligada ao movimento underground punk feminista dos anos 90 (do qual as Bikini Kill são fortes embaixadoras e uma das inspirações da banda) começa diluída no início do disco e vai ganhando força à medida que as faixas vão avançando. De repente, chegamos a “15/25” e somos surpreendidos por uma bateria potente e uma guitarra que vai aumentando a densidade, à medida que uma voz emocional soa etérea. mas enchendo a canção.
Seguimos para “He Said, She Said”, onde um baixo pesado e uma voz abafada são bem representativos da crítica de masculinidade tóxica que a canção pretende fazer. O disco vai avançando e a inspiração grunge e punk sente-se cada vez mais e em “Hurt Me” é mesmo gritada. E, de repente, parece que esvaziámos de energia e voltamos à luminosidade suave e opaca do shoegaze em “I Held You Like Glass”. Apropriado, porque parece também que estamos a ouvir as Softcult através de vidro…
A suavidade dura pouco: duas faixas depois temos a energia riot grrrl de “Tired” (não nos apetece, a todos, gritar o nosso cansaço de vez em quando?”). E, a fechar, a faixa-título, leve, delicada, suave dedilhado no regresso ao shoegaze com toque alternativo, em crescendo, até culminar numa canção doce e cheia de intensidade.
O grande fator diferenciador deste disco é, talvez, o seu maior inimigo: as Softcult quiseram fazer tudo ao mesmo tempo, juntando shoegaze e punk e grunge no mesmo disco, em faixas alternadas, levando a que quem ouve de repente tenha alguns sobressaltos quando passamos do sonho à aspereza de uma guitarra forte ou o som da bateria de repente nos abana as entranhas.
When a Flower Doesn’t Grow é um disco interessante, sobretudo para os saudosistas dos anos 90, onde o feminismo está à flor da pele mas onde se sente também uma energia muito masculina, tudo isto em apenas meia hora. Vale a pena ouvir para perceber de que parte gostamos mais: se da suavidade do shoegaze se da aspereza do grunge.