Scott conseguiu aproveitar-se das suas evidentes influências (…) para se catapultar no género, sem ser derivativo, e construir uma epopeia autêntica. Podemos dizer que Luís de Camões tem Os Lusíadas assim como Travis Scott tem Rodeo.
2015 não foi o ano que nos introduziu ao trap, de todo; mais de uma década havia passado desde os sons iniciais de Young Jeezy, Gucci Mane e T.I., e desde Trap Musik e Trap House, os álbuns que, não só, definiram o género, como espoletaram a onda que a geração posterior viria a surfar.
Contudo, foi sim em 2015, após este período inicial, que nos chegou a magnum opus do trap, um pioneiro do rap psicadélico; Rodeo, de Travis Scott.
O álbum de estreia de Jacques Webster II tem um conceito autobiográfico que retrata a vida caótica, quase própria de um Carnaval ou de um rodeio, que este leva. Este conceito é levado a cabo e expressado sonicamente por uma produção psicadélica, com notas arrastadas e letras excêntricas, dignas de uma experiência psicotrópica. Scott conseguiu assim aproveitar-se das suas evidentes influências, como Kanye West, Kid Cudi e o já mencionado T.I., para se catapultar no género, sem ser derivativo, e construir uma epopeia autêntica. Por outras palavras, podemos dizer que Luís de Camões tem Os Lusíadas assim como Travis Scott tem Rodeo.
“Pornography” é perfeita para introduzir o ouvinte ao mundo de Rodeo; começa com um prelúdio falado por T.I., que conta a história de um protagonista irreverente que se rebela contra qualquer autoridade e que se dedica a descobrir o seu caminho. Simultaneamente, são-nos apresentados os sons característicos do álbum, acompanhados de auto-crooning e de rap melódico característicos.
Seguimos com energéticas performances de Travis e de Quavo na faixa de duas partes “Oh My Dis Side” e, depois, com um icónico hook de Future e um verse geracional de 2 Chainz na épica de quase oito minutos “3500”.
O próximo destaque é “90210”, aquela que é considerada geralmente (e correctamente) a melhor música da carreira de Travis Scott. A primeira parte, mais pesada e cinemática, conta a história de uma rapariga que procura a fama, mas que, pelo caminho, cai no mundo da pornografia e das drogas. A segunda parte, por outro lado, acompanhada de um instrumental mais arranjado e alegre, é uma viagem pelas origens de Travis Scott e de como correu a sua própria perseguição pela fama.
Até ao final, continuamos a encontrar conjuntos de músicas sequenciadas na perfeição. Faixas experimentais, como “Piss On Your Grave”, que podia perfeitamente estar no álbum Yeezus, de Kanye West, “Flying High” e “Ok Alright”, que, para além do excêntrico ScHoolboy Q, conta com uma contribuição inédita de SZA, à data ainda uma desconhecida; puros bangers como “Nightcrawler”, que é tão contagiante que convenceria um monge eremita a ir ao Urban e consumir dois litros de vodka Smirnoff pura, “Antidote” e “I Can Tell”; e ainda peças mais psicadélicas e melancólicas, que formam os momentos mais altos do álbum, a meu ver, como “Impossible” e “Maria I’m drunk”.
Rodeo, para mim, enquadra-se perfeitamente na expressão “all killer, no filler”. Todas as músicas sustentam a qualidade do LP, mas, para além disso, todas contribuem para a experiência, que é coesa, imersiva e consistente. Quem é fã da percussão e dos 808s agressivos do trap, mas procura um projecto mais ambicioso, deveria ouvir esta epopeia.
Texto de Rodrigo Ramos