Um bom mentiroso não se deixa apanhar. Marianne Ihlen, musa de Cohen no início dos 60s, morre a finais de julho deste ano, seguindo-lhe Cohen um par de meses depois. Na sua última carta à norueguesa, Leonard escreve “penso que te vou seguir muito brevemente.” Preponderante questão: alguma vez parou? No vídeo oficial de “So Long, Marianne”, contemplando uma actuação de 2014, confessa enternecido, primeiro refrão volvido: “This thing is so pretty.” Esta coisa não era a canção, não a melodia, não os delicadíssimos coros femininos, mas o facto do “amor não acabar. As relações acabam, pessoas morrem, mas o amor que tu recebes permanece contigo, uma fundação para se ser construída.” – palavras de Ihlen à entrevistadora Kari Hesthamar, autora de So Long Marianne – A Love Story. Cohen apercebe-se disto e rende-se, em paz e satisfeito, sorriso rasgado, à imensidão e à beatitude de rir e chorar e chorar e rir sobre o assunto mais uma vez, como sempre o fez. A canção é celebração, não obstante o narrador “lavar as pálpebras à chuva” no seu final. O amor é celebração, mesmo quando acaba, mesmo quando se diz “até à vista.” No final, toda a gente tem erros no bolso: um desculpável lapso de Cohen foi mentir à sua passada musa. Ninguém que canta um amor durante meio século alguma vez pode dizer que deixou o seu trilho, as suas memórias, a sua fina teia de aranha. Mas como todos os bons mentirosos, Cohen não se deixou apanhar.
“So Long, Marianne” – Leonard Cohen