Ao segundo dia, o festival fez jus ao nome e não faltou Rock!
BRMC, Tomahawk, Kaiser Chiefs, os nossos Clã e Samuel Úria, e até Miguel, para surpresa dos menos atentos. Uma série de bons concertos com energia rock séria.
Tudo começou, às 20h, no palco principal com um concerto competente dos Black Rebel Motorcycle Club (BRMC). A banda de San Francisco (actualmente sediada em Los Angeles) está claramente longe da popularidade de outros tempos. De resto, em entrevista recente ao Correio da Manhã, os seus elementos, na brincadeira, lembraram que há uns anos eram eles a encerrar os festivais, à frente dos The Killers e dos Kaiser Chiefs, enquanto hoje em dia sucede o contrário.
Os BRMC, que com os seus 15 anos de carreira e sete álbuns quase podem ser considerados uns veteranos, pelo menos tendo como termo de comparação muitas das bandas presentes neste Super Bock Super Rock, foram prejudicados por terem sido a primeira banda a entrar em acção. Quando subiram ao palco, eram poucas as centenas de pessoas que os aguardavam, mas no final do concerto a casa estava bem composta.
O rock “de garagem” dos BRMC agradou sem entusiasmar por aí além, com algumas músicas do seu último álbum – Specter at the Feast – a ecoarem na Herdade do Cabeço da Flauta. Evidentemente, foram os seus clássicos que despertaram maior atenção da audiência.
Entretanto, os Midnight Juggernauts subiram ao palco EDP às 21h15, perante uma audiência que não ultrapassava a centena de pessoas. No entanto, como muitas vezes acontece neste palco secundário, a multidão foi-se juntando e no final, eram muitos os que mexiam as ancas ao som pop-electrónico da banda de Melbourne. Mas de forma bastante controlada, porque a música dos australianos não se presta a grandes histerias…
Vincent Vendetta, o vocalista, não se cansou de comunicar com o público e de elogiar o nosso país, pedindo-nos que visitássemos a Austrália no nosso Inverno, lembrando o bom tempo que existe no país dos cangurus enquanto na Europa tiritamos de frio…
Como seria de esperar, foi apenas com “Into de Galaxy”, do EP com o mesmo nome, de 2008, que o público reagiu com mais entusiasmo. Por outro lado, alguns temas do recente “Memorium” foram recebidos de forma bastante fria.
Desta banda ficou essencialmente a postura simpática do seu “frontman”, que acabou o concerto a tirar uma fotografia ao público. E também a sua incontida alegria, pois esta foi a última data da digressão europeia dos Midnight Juggernauts.
Os Tomahawk são uma das inúmeras bandas de Mike Patton (Faith No More, Mr. Bungle, Fantômas..), monstro de palco, Padrinho do Rock! Ontem falávamos aqui do crescimento dos Arctic Monkeys – mas, no patamar onde eles acabam de entrar, já está Mike Patton há mais de 20 anos. Competentíssimo em tudo o que faz, Patton trouxeao Meco o novo disco dos Tomahawk, Oddfellows, e descaregou energia pela plateia. Não será propriamente a plateia tradicional dos Tomahawk, mas eles não se importam de evangelizar as novas gerações, que se calhar nunca tinham ouvido falar desta banda. Para falar, Mike Patton usa frequentemente o português – também chegou a cantar um refrão em «porra, caralho». Sem conseguir assistir ao concerto todo, a ideia que nos fica é de uma aula de rock, com alguns dos mais competentes professores, da velha guarda.
Missão injusta tinha, à mesma hora, Samuel Úria. A tocar no palco Antena 3@Meco, estava ensanduichado – de um lado Tomahawk, de outro Midnight Juggernauts. O rockman trovador teve de puxar pela guitarra para se fazer ouvir, e fez-se ouvir lindamente, em frente a algumas centenas de fãs entusiasmados, que mostram que Úria já não é para um nicho. Tocou à mesma hora que Mike Patton, mas no «ombro-a-ombro» com o monstro, não saíu a perder.
Começou o concerto logo a dar espectáculo, com um rock folk cheio de vivacidade e boa disposição. Passou por várias canções do recente O Grande Medo do Pequeno Mundo e vistou temas mais antigos – sempre bem acompanhado pelos forasteiros do costume – Miguel Sousa, Filipe Sousa, Jónatas Pires, e a participação especial de Miriam Macaia, no violino e segundas vozes.
Uma bela festa, um grande concerto de Úria em modo festival – e que ainda contou com a participação de Manuel Fúria em “Lenço Enxuto”.
Depois dos Tomahawk, foi a vez dos Kaiser Chiefs subirem ao palco principal. Como se sabe, a banda inglesa tem uma apreciável legião de acérrimos fãs no nosso país, isto apesar das suas constantes visitas, normalmente uma por ano.
Foi ao som de “Everyday I Love You Less and Less”, do seu excelente álbum de estreia Employment, que os Kaiser Chiefs abriram as hostilidades. E os poucos que ainda não conheciam Ricky Wilson logo ficaram rendidos à “figura”. O vocalista da banda de Leeds assenta que nem uma luva na definição de “animal de palco”. Mesmo quem não gosta do estilo de música dos Kaiser Chiefs, acaba por ficar rendido às suas loucas correrias e entrega total. Numa comparação futebolística, Ricky é o Diego Capel da música – por vezes há exuberância a mais para pouco “sumo”, mas tal como o espanhol leva uma equipa para a frente, também ele consegue “domar” uma multidão.
A carreira um pouco abaixo das expectativas dos Kaiser Chiefs – esperava-se mais depois do excelente primeiro disco – não é suficiente para tirar brilho aos seus espectáculos. Reconheça-se, no entanto, que apesar de não serem foras-de-série, qualquer um dos outros três álbuns tem canções em número suficiente para não envergonhar em qualquer “setlist” que seja apresentada. E com o novo baterista Vijay Mistry plenamente integrado. Ele que substituiu Nick Hodgson, que em Dezembro último abandonou o projecto de forma algo surpreendente, até porque era um membro muito importante, inclusivamente com papel na escrita das músicas.
Entretanto, o concerto encaminhava-se para o final e ficava a faltar o habitual número de circo de Ricky Wilson. Todos nos lembrávamos da queda em Paredes de Coura, que fez com que passasse grande parte do concerto com um pé partido. Ou então da sua descida em slide por cima do público, na última edição do Rock in Rio. Desta vez, o músico brindou-nos com a subida a uma banca da Super Bock, onde cantou o último tema, enquanto bebia uma cerveja. Três fãs fizeram questão de o imitar, mas logo foram afastados pelos zelosos seguranças. Aguardamos pela tua próxima visita Ricky, porque aqui em Portugal nunca nos fartamos de ti…
Clã
Mais ou menos ao mesmo tempo, na outra ponta do recinto, estavam os Clã.
E neste caso, começamos por falar do palco. Secundário. Os Clã têm 20 anos de carreira e são uma das bandas mais sólidas do país. Tocaram ao mesmo tempo que os Kaiser Chiefs mas nem por isso tinham pouca gente a assitir ao concerto. Mais uma vez, não se compreende como é que uma banda destas não tem direito ao palco principal deste festival.
Como se disse no início desta reportagem, os Clã deram mais um grande concerto de rock, cheio de energia e vitalidade. A vocalista Manuela Azevedo parece que tem 19 anos, não pára um minuto em palco, dança, salta, canta, grita puxa pela plateia e emana charme em cada movimento. Não se pode, ou não se deve, chamar animal de palco a uma senhora – mas não haverá outra definição que encaixe tão bem. Entrega-se a cada música como se fosse a última e contagia a audiência – que vibra principalmente com os clássicos mais antigos, “Problema de Expressão” ou “GTI”. No final, saímos todos com asas nos pés.
Antes do concerto que chamou ao Meco milhares de pessoas, ainda houve tempo para assistir à estreia de Miguel, norte americano de 27 anos, que começou por se dedicar ao R&B e neosoul. No segundo disco, editado em 2012, começou a piscar o olho também ao funk e ao rock – e no primeiro concerto em Portugal, trouxe principalmente Rock. Mesmo as músicas menos rock, foram transformadas em palco – e ele, Miguel, é um grande showman. Tem a clara noção do que é um um espectáculo – e fez deste seu concerto um espectáculo cheio de groove. A pose, as vestes e a atitude – não permitem afastar os olhos e os ouvidos do palco. À partida seria insuspeito, mas Miguel foi mais um a inscrever o seu nome no mote do dia – ROCK!
Os Killers fecharam a noite no palco principal, provocando obviamente a maior enchente do dia. De acordo com dados da organização, estiveram cerca de 28 mil espectadores esta sexta-feira no recinto.
Uma nota prévia: o Altamont não tem fotografias porque os Killers não se deixam fotografar
O “baixinho” Brandon Flowers pode não ser tão exuberante como Ricky Wilson, mas é um rapaz que também domina multidões sem qualquer problema… E isso mais uma vez ficou demonstrado logo a abrir, com o excelente “Somebody Told Me”.
Na nossa opinião, e como algumas vezes acontece (não é verdade, Kings of Leon?) a popularidade dos Killers tem aumentado à medida que a sua qualidade musical tem diminuído. A um super álbum de estreia (Hot Fuss), seguiu-se um bom disco (Sam’s Town) e dois sofríveis (Day & Age e Battle Born).
De resto, nos Killers, mesmo quando não sabemos de que álbum é alguma música, acabamos por o perceber imediatamente: do primeiro, fazem parte os temas pop-alternativos refrescantes, do segundo aqueles que sugerem uma certa grandiosidade épica e dos dois últimos os tais temas orelhudos que agradam às massas.
Numa estratégia que agrada a muitos, mas desagrada a alguns, os Killers apostaram claramente num tipo de música para o grande público e ganharam inúmeros fãs, aos quais de outra forma nunca chegariam.
No entanto, foi um excelente espectáculo aquele que os Killers nos ofereceram, com grandiosos jogos de luzes e lasers, que encantaram uma multidão rendida. E não faltou a versão de “Shadowplay”, dos Joy Divison. E quando sentíamos saudades dos velhos Killers, lá apareceram “Mr. Brightside” ou “Smile Like You Mean It”. E fomos para casa com um sorriso nos lábios…
(texto e fotos: André Cruz Martins, Francisco Pereira e Duarte Pinto Coelho)







