No dia em que o rock soou mais alto, não escapamos ao ataque massivo de Del Naja e Marshall. Ninguém escapou.
Deus descansou ao sétimo dia. Nós, cem por cento humanos, resolvemos antecipar um pouco esse supremo repouso, e abrandámos um pouco o ritmo ao terceiro. A perspetiva inicial era apenas fazer o registo de quatro concertos, todos eles mais próximos dos gostos de quem nos costuma procurar. No entanto, se fomos feitos à imagem e semelhança Dele, o melhor é não abusarmos da sua incomensurável paciência.
Fomos escutar os The Sophs (que raio de nome estes norte americanos escolheram…), mas cada um sabe de si, e eles devem saber, uma vez que são uma banda de seis elementos. Rock indie ao jeito de camisas de flanela e calças escuras skinny, embora vários estivessem de calções e t-shirt. Vestígios desse tecido de algodão ligeiramente peludo, nem vê-los. Sempre estamos numa primavera que já é mais verão do que estação do amor. São todos jovens, os The Sophs, falam mais cantando, do que cantam verdadeiramente. Letras muito narrativas, ritmos e ruído típicos do estilo que envergam, devem divertir-se imensamente no palco, vivendo a ilusão (sem sentido sentencioso ou judicativo da nossa parte) de que o estrelato poderá chegar um dia. We never know, pensarão eles na sua língua. O futuro encarregar-se-á de dar ou não razão às suas pretensões. Pelo que vimos ontem, desejamos-lhes a melhor das sortes.
Fomos escutar outro sotaque ao palco Vodafone. Banda com pergaminhos no rock dos vizinhos ibéricos, os Triángulo de Amor Bizarro tiveram à sua frente uma considerável multidão de gente entusiasmada. Os muitos espanhóis em terras do norte (turistas, muitos turistas) não terão faltado à festa, sin duda. O rock é quase sempre rasgado, de explosões rítmicas e vozes a brincar aos decibéis, tanto a de Isabel Cea, como a de Rodrigo Caamaño. São galegos, o que nos faz gostar logo um pouco deles. Mas deixamos uma pergunta: para quando, amigos do Primavera Sound, a presença de Sr. Chinarro e sua banda, ou os míticos Los Planetas nos palcos do vosso festival? Isso sim, seria muito de valor, pelo menos para nós que gostamos muito deles. Houve, portanto, noise-rock e shoegaze ao final da tarde. Muita desta gente que vibrou com os Triángulo, certamente ficaram para os Idles. Vimos por lá muitas t-shirts da banda de Bristol.
Os Yard Act tiveram uma entrada forte, a lembrar o Nick Cave dos tempos de Your Funeral… My Trial, denso e negro. O rock selvagem quanto baste, atravessado por um esgar de funk descabelado e rebelde, trouxe mais um mar de gente (parecem marés que não respeitam horários, movimentando-se ao sabor dos palcos e do que neles acontece) ao Estrella Damm. O spoken word do costume, o carisma de James Smith como força motriz da banda, corre por todo o lado, vira-se do avesso, é um autêntico motim que ninguém para. Embora não sejam muito percetíveis, quando cantadas em euforia, percebe-se que há uma veia irónica que pulsa nas letras das canções, como se fossem crónicas dos tempos ingleses da atualidade. A sua atitude em palco, entre o punk moderno e o antigo (é fácil pensar nos The Clash, não é?) agita tudo e todos. Não é proibido ficar parado, mas é difícil permanecer assim, ausente de movimentos, apenas em estado de contemplação. Foi desta que começou o nosso derradeiro dia do Primavera, com rock, rock sujo, sujeito a pagamento de taxa por imobilidade fora de contexto. Ao fim de três dias, vai haver muito Voltaren nas pernas e nas costas de milhares de pessoas, lá isso vai.
Para que a linguagem do rock não fosse a única no léxico de ontem, ainda picámos (mas muito de raspão) o Menino Criolo Mimado com os amigos Amaro e Dino. Resulta bem, o cruzamento transatlântico. Agradável, por vezes bossanovista com sotaques de paladares de África, outras vezes encostando-se ao rap, ao jazz , à eletrónica que se ajeita bem a tudo. Depois, se atentarmos ao todo, há o lado virtuoso de Amaro Freitas, as palavras que mordem de Criolo e a ginga crioula de Dino D’Santiago. Tudo se assemelhou a um diálogo concretizado em várias línguas, todas conhecidas pelo trio. Falo, acima de tudo, da linguagem universal da música. Essa, quando resulta, todos a entendem. Foi um bocado isso que aconteceu. Já quase com o sol a dizer adeus, aqueles instantes limparam a cabeça e deram as boas vindas à noite trip-hop e roqueira que estava a ser cozinhada por detrás dos palcos onde Massive Attack e os The Idles iriam atuar.
A hora havia chegado e eu, não tão conhecedor assim do ataque em massa que se adivinhava, tinha ao meu lado um amigo que é uma enciclopédia ambulante da banda. Tanto melhor. “Sou Real?”, assim mesmo, em português, no grande ecrã. Estava dado o mote para uma longa viagem, uma trip profunda, qual descida ao inferno, sem Dante para nos guiar. Medo, curiosidade, mas sobretudo medo (tudo através das imagens de filmes que iam passando, antes das canções) eram o mote para a soturnidade luminosa que se ia abatendo sobre nós. A voz, que tantas vezes está presente nos concertos da banda, Elizabeth Fraser (lembram-se dela, certo, e da banda magnífica que ajudou a fundar?) deu a alguns temas o aprumo claustrofóbico exato. A imersão ia crescendo, adensando-se, avançando até aos limites possíveis. Não tenhamos dúvidas: esta é, entre outras coisas, música de combate, de guerrilha sonora, palavrosa quanto baste, com imagens fortes (Yevgeny Prigojin, ainda vos diz qualquer coisa?), mortos estendidos no chão coreano, do sul, vítimas de vícios e ideologias políticas. Ninguém escapa a isto. Estamos todos no mapa, e os poderes que não conseguimos nomear sabem exatamente onde estamos. O que tem isto a ver com música? Vá, não sejamos ingénuos. O mundo constrói-se e destrói-se por detrás, nas nossas costas, mas quando nos viramos, nada vemos, ou vamos continuando a nada querer ver, a não crer nos sinais que começam a despontar… Este foi também um concerto-documental. Não passa nas televisões, nem em qualquer canal ou satélite dos musks da vida, mas passou ontem, à nossa frente. Foi duro. E estamos todos no mapa, é bom ter isso em mente. O algoritmo acabará sempre por nos encontrar. Sempre. Foi um concerto tipicamente anti-espírito festivaleiro. A antítese do que desejavam, na grande maioria, as pessoas ao nosso redor. E eram milhares, sempre prontas a conversar e conversar e conversar. Enfim, a educação faz sempre falta.
Só nos restava Idles, embora o desgaste já se fizesse sentir. Faltava um último esforço. Apesar de conhecermos aquilo que os rapazes de Bristol são capazes de fazer em palco, ir por vales e montes até eles, acreditem, foi um misto de alegria, mas também um ato de resistência. Perceberam a brincadeira, o jogo das palavras em itálico? Claro que sim. Muita “guerra” em palco, muita luta encenada, o tremendo Joe Talbot que se rebenta todo durante o concerto, gesticulando, batendo em si mesmo, cuspindo mais do que o Iggy Pop. Enfim, o circo a que nos habituaram, sempre em modo punk-hardcore.
A noite ia alta e era tempo de escrever a palavra fim. Afinal, não cumprimos o inicialmente prometido. Não abrandámos o ritmo, e assim dissemos adeus e até para o ano ao Primavera Sound! Foi, uma vez mais, um prazer.
*Fotografias brevemente