O segundo álbum da banda de Seattle é músculo e nervo, com uns recantos bonitos de vivenciar.
Lembro-me de ouvir Vs. vezes sem conta, na adolescência inquieta, naquele ritual quase religioso de pousar o CD no leitor, carregar no play e deixar que o mundo ficasse do lado de fora, enquanto o meu quarto se enchia da garra dos Pearl Jam, das histórias que Vedder partilha, de portentosos riffs do McCready. Foi um dos discos que acompanhou as dores de crescimento, entre dúvidas e descobertas, e hoje, quando o ouço, volto a habitar aquele espaço/tempo, volto a ser um jovem de 15 anos de cabelo comprido, com posters de bandas nas paredes.
Vs. é músculo e nervo. É o som de uma banda a fugir ao peso do sucesso de Ten e a escolher o confronto. Não houve videoclipes, não houve concessões óbvias à MTV – e, ainda assim, tornou-se o disco mais vendido da banda (só na primeira semana foram 950,378 cópias). Um paradoxo delicioso: quanto menos quiseram jogar o jogo, mais o ganharam. Há aqui uma urgência quase física, desde o momento em que arranca “Go” e nós percebemos que temos de ir, não há como ficar. Esta energia, que já existia antes, subiu mais um nível com a entrada de Dave Abbruzzese na bateria. O seu toque é mais direto, mais pulsante, empurra as canções para a frente com uma força que parece sempre à beira de descarrilar – mas nunca o faz.
“One, two three four five against One, five five, five against One” grita Vedder aos nossos ouvidos enquanto o ritmo rápido e furioso de “Animal” nos faz abanar a cabeça, para logo vir a calmia depois da tempestade – “Daughter” é uma bonita canção, que só peca pela excessiva audição a que fomos expostos. Podia aqui perorar sobre todas as canções, mas não quero aborrecer-vos, até porque convencer alguém a ouvir Pearl Jam em 2026 faz muito pouco sentido – há uma geração de fãs indefectíveis que enchem os seus concertos e há os mais jovens que nem lhes ligam, colocando-os na prateleira (de certa maneira merecida) de dad rock. Porque, de facto, não fazem um disco bom há uma boa porrada de anos.
E depois há “Rearviewmirror”. Aquele arranque. O baixo trepidante, insistente, como um motor a ganhar rotação antes de uma fuga inevitável. Sempre que começa, ainda sinto o mesmo arrepio, o sentimento de libertação pura em forma de som, uma corrida a fugir do passado que ficou (finalmente e depois de uma árdua batalha) no espelho retrovisor.
Mas Vs. também sabe sussurrar. “Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town” é, para mim, o seu coração secreto. Há nesta canção uma melancolia serena, uma espécie de ternura resignada que me acompanhou em muitos momentos de solidão. “I seem to recognize your face…” – e reconhecemos, sim, pedaços de nós próprios naquela letra. É talvez a música a que volto com mais frequência, a que ouço em silêncio mais atento. E que canto, nem que seja para dentro, quando a circunstância de ter pessoas à volta não permite usar todo o esplendor das minhas cordas vocais.
Ao longo dos anos, fui acumulando dezenas de CD’s ao vivo da banda, como quem guarda capítulos adicionais de uma história que não quer que termine. Porque os Pearl Jam sempre foram isso: uma narrativa em movimento. Vs. é o capítulo em que decidiram enfrentar o mundo de punhos cerrados – e nós, adolescentes de então, enfrentámo-lo com eles. Ainda houve um incrível Vitalogy e um surpreendente No Code, que ficarão para sempre cá dentro, a trazer vivências passadas em conjunto, mas depois disso a nossa relação foi tornando-se monótona e decidimos que cada um seguiria o seu caminho, eu com outras bandas favoritas, eles com outros fãs mais fiéis.