A viola campaniça e O Gajo estão juntos há dez anos e marcaram celebrações com convidados especiais.
O caminho é o poema
Mas não para mim
Para mim, o caminho
Está entre fazer uma hora a andar
Ou contar os trocos que não tenho no cartão
Para apanhar o metro e meio de gente
Até Santa Apolónia
Numa hora morta que nada dá
A quem gosta de esperar
Uns catorze minutos
Para depois ir de pé numa carruagem
Onde se sentam todos aqueles
Que andam dentro das linhas
À espera de qualquer coisa
Que saia fora dos carris
Coitados
Dizem ser navegantes
Mas a este passe
Não há bilhete
Que os salve
De continuarem
À espera
Ou de se lembrarem
De um concerto d’O Gajo
No Ferroviário, em 2019,
Na sala TGV
TGV?
Eu TGVi
Estava lá
Foi incrível
A forma como o Gajo tocava aquela campaniça
Quase me fez esquecer
Que este já não era o João Morais
Dos Corrosão Caótica
Ou dos Gazua
Não, esse era outro gajo
Este era O Gajo
Se fizerem confusão
Está tudo bem
Porque um gajo
Não o Gajo
Não se está para chatear com estas coisas
Dei de caras com caras
De tantas outras faces
Mais ou menos conhecidas
E que estiveram no B.Leza
Para soprar as velas
Que passaram naquele Cais do Sodré
Onde o Gajo cumprimentava 10 anos
Com um comprimento de onda
Que ia dali até aos bastidores
Onde tive a feliz oportunidade
De comer amendoins
E de tirar a casca a mim mesmo
Fruto de um belo vinho
Que me fez suspirar e dizer
Depois de um dia longo
“Uva! Finalmente livre!”
Alinhei-me, então, no sítio certo
Sempre certo, incerto
E deliciei-me com tudo
O que o Gajo tocava
Não me queixei com “Dias Imperfeitos”
Até porque estava afastado
Daquele “Mar de Gente”
Daquela “Marabunta”
Daquele “Baile de Búfalos”!
Ora com quinteto,
ora com convidados especiais
Aquele palco também viu passar
Tó Zé Bexiga com outra campaniça
Carlos Barretto no contrabaixo
E José Anjos no contrabando
De poesia sem direitos alfandegários
Não esquecemos Zé do Gesso
Nem o Jorge dos Arames
Antes de passarmos aos que lá ficaram pendurados
A noite inteira
Falo de João Martins na sanfona
Filipe Sousa no baixo
Diana Ferreira na gaita de foles
E Issac Achega na bateria
Mas ‘achega’ deste tributo
Em forma de poesia reles
Despeço-me do Gajo
Com um desejo de mais dez anos
Mais do que isso, não
Ou teríamos para aqui um trinta e um
Se o caminho é o poema?
É
Mas não para mim
Para mim, o caminho
Está entre fazer uma hora a andar
Ou contar os trocos que espero ter no cartão
Para ir ver o Gajo
Sempre que ele fizer anos
Fotografias de Gonçalo Nogueira












