Reportagens

Ney Matogrosso || Coliseu dos Recreios

A noite foi de emoções fortes. Há muita coisa no mundo de Ney Matogrosso que convém ouvir e ter em conta. A liberdade de cantar continua a ser um bem supremo para o artista.

Ney Matogrosso é um dos grandes nomes da última geração dourada da música popular brasileira que mantém intacta a capacidade de surpreender. Apesar de já não ser o enfant terrible de outros tempos (a idade obriga sempre a alguma maior contenção na forma de estar e de viver), o homem com h ainda mexe, e mexe bem. Ontem, resolveu colocar o seu Bloco na Rua, mesmo ali nas Portas de Santo Antão, no Coliseu dos Recreios de Lisboa.

Depois de ter estado durante cinco anos Atento aos Sinais, o camaleão de Bela Vista voltou a soltar a sua voz metálica, desta vez num novo concerto, com repertório novo, e o que se espera é que, dada a qualidade do espetáculo e o amor que o público sente por Ney, Bloco na Rua venha a ter sucesso equivalente ao anterior. Ney foi avisando que o conceito por detrás desta recente tour (as canções, as letras das canções, o que se diz nos entremeios das mesmas) não é matéria panfletária e, por conseguinte, não há objetivamente uma mensagem dirigida ao Planalto de Brasília. No entanto, seremos sempre livres de inferir em tudo o que se vê e ouve  algumas notas de desagrado sobre o estado atual do Brasil. A escolha do repertório, como Ney vem dizendo em várias entrevistas, teve por base o prazer do canto, o prazer de cantar as palavras dos temas escolhidos. A receita, podemos garantir, é ganhadora. E, como bem sabemos, em equipe vencedora, convém não tocar. Daí que a banda que acompanha Ney Matogrosso seja rigorosamente a mesma que com ele andou nos últimos anos.

Em Bloco na Rua há de tudo um pouco. É a diversidade que comanda. Desde Sérgio Sampaio (o nome do espetáculo vem de uma antiga composição sua) até Paulinho Moska (e que bom foi ouvir a belíssima “Um Dia”, passando por Rita Lee (outra irreverente, outra rebelde como Matogrosso), Paralamas do Sucesso, o saudoso Itamar Assumpção, Cristóvão Bastos, Chico Buarque, Ednardo, Raul Seixas, Raimundo Fagner, Secos e Molhados (como fugir a esta banda?), Cazuza (como fugir a este compositor?), Roberto e Erasmo Carlos e os mineiros Milton, Lô Borges, Beto Guedes e Fernando Brandt. Constelação maior, só na mais fértil imaginação e por encomenda.

Em termos musicais, há também de tudo um pouco. Rock, samba, samba-canção, balada romântica, bolero e, sobretudo, “desejos sórdidos”, tudo com o toque especial de Ney, que nunca deixa de espantar quanto à sua presença em palco. Continua, com 79 anos, a mexer-se como poucos com 50. Dos sete elementos da banda, e para não ser exaustivo, refiro apenas os nomes de Sacha Amback e Marcos Suzano. Os restantes, podemos garantir, são de igual qualidade.

Portanto, como se percebe, Bloco na Rua tinha de sair bem, intenso, gingado e acutilante nas mensagens que tenta passar. Há violência, mas também amor. Há desespero, mas também esperança, há “gente com fome”, mas também fartura de emoções, utopia e realidade, tudo com a exata certeza de que “2 e 2 são cinco”. E o “pavão misterioso” vai abrindo as asas para voar à altura de Ícaro, “sem medo”, sem receio de qualquer queda. Está-lhe no “Sangue Latino” de outros e de estes tempos.

É sempre apetecível o exercício da interpretação. Depois de terminado o concerto, e tendo em conta algumas das canções escolhidas, é possível perceber-se a ideia de que nelas se faz um apanhado, um ajuste de contas, um ponto de situação com a vida. Ney olha-se ao espelho do presente, mas não deixa o retrovisor esquecido. Não é inocente a escolha de canções como “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”, “Jardins da Babilônia”, “Pavão Misterioso”, “O Beco”, “Tem Gente Com Fome”, “Sangue Latino” (o verso “E o que me importa é não estar vencido” diz muito de um artista que com quase oito décadas de existência, ainda está na posse das suas capacidades vocais e interpretativas), “Coração Civil” ou “Poema”, tema que encerra o concerto e que foi escolhido propositadamente para ser cantado em Portugal, uma vez que não faz parte do alinhamento de Bloco na Rua. A canção foi escrita por Cazuza, um dos grandes amores da vida de Ney. Lembrar Cazuza no fim do espetáculo é uma nota de carinho bastante tocante. E quando chega o momento de Ney cantar os versos que dizem “De repente, a gente vê que perdeu / Ou está perdendo alguma coisa”, damos conta de que a vida passa, e a arte de saber passar elegantemente com ela, poucos a dominam. Ney Matogrosso será, declaradamente, uma exceção a essa regra.

Se o passado artístico de Ney Matogrosso é de peso, o presente não o desilustra, nem o embacia. O futuro, tenha ele a extensão que vier a ter, será sorridente para este “Homem com H”.

No Newer Articles
Comments (0)

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *