Reportagens

Godspeed You! Black Emperor || Lisboa ao Vivo

O coletivo canadiano invocou a sua visão sombria, num armazém demasiado pequeno para suportar a magnitude da música.

Um concerto dos Godspeed You! Black Emperor nunca será menos que um evento. A comitiva canadiana anda há já vinte anos a desenvolver o seu brutalismo musical, em tesselações que exploram um mundo distópico, desertificado pelo capitalismo tardio. Agora, dois anos depois de lançarem o seu último disco, Luciferian Towers, chegou a hora de o apresentar no Lisboa ao Vivo, um palco talvez demasiado pequeno para a enormidade do grupo. Os Light Conductor romperam as hostilidades num set que começou com um drone meio insosso ao qual foram lentamente acrescentadas camadas de efeitos e instrumentação que culminou numa parede de som tão intensa que nos fez perceber porque é que os Godspeed os escolheram para abrir o concerto.

Os projetores começaram a rolar, a palavra “hope” surgiu atrás do arsenal de instrumentos e um vulcão sónico começou lentamente a entrar em erupção. Porque nem tudo é tragédia e catástrofe, desde o seu regresso que os Godspeed começam os seus concertos com “Hope Drone” uma afirmação de vitalidade e perseverança num mundo em decadência constante. Um último grito de esperança surgiu sob a forma de “Bosses Hang”, o seu riff triunfante continuando a cadência emocional iniciada por “Hope Drone” de forma magistral, à medida que a projeção mostrava enormes arranha-céus erguendo-se como antenas para o céu. Infelizmente, mesmo com a liberdade relativa oferecida pelo contexto de um espetáculo ao vivo, a música, tal como na sua versão de estúdio, mal tem tempo para respirar e acaba enquanto ainda a estamos a saborear.

Como não podia deixar de ser, estrearam-se novas composições que provavelmente irão figurar no próximo disco. “Glacier” mistura a influência oriental que permeia alguns dos discos recentes do grupo com uma batida marcial que rapidamente escala para um frenesim simultaneamente ácido e majestoso. Já “Cliff”, na sua orquestração e progressão, remete-nos para o grupo de F# A# ∞ mas com uma consistência de quem está no jogo há tanto tempo como os Godspeed You! Black Emperor estão.

A epopeia não podia ter acabado de melhor maneira: O violino de Sophie Trudeau anunciou o lamento fúnebre de “Moya” para júbilo geral do público. Não tardou para que a voz indignada de Blaise Bailey Finnegan III se fizesse ouvir entre explosões de bateria, guitarras celestes e o omnipresente violino a ancorar a composição. Depois de um último clímax, o grupo foi lentamente saindo do palco, cabendo a um dos músicos desligar lentamente cada um dos amplificadores até o silêncio ser substituído por aplausos eufóricos de quem acabou de ser irremediavelmente transformado.

 

Setlist:

Hope Drone

Bosses Hang

Glacier

Anthem for No State

Cliff

Moya

BBF3

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