Em 1999, quando Moby lançou Play, poucos imaginavam que um disco melancólico, construído sobre batidas eletrónicas suaves e velhas gravações de blues e gospel norte-americano, se transformaria num dos álbuns mais omnipresentes da viragem do milénio.
A recente performance em Coachella (com Jacob Lusk na voz, irrepreensível) fez-me querer relembrar o artista e, mais especificamente o seu disco mais icónico, no que foi uma viagem aos tempos de universidade.
Antes de Play, Moby era sobretudo uma figura respeitada da eletrónica alternativa. Tinha passado pela cena rave, techno, ambient e até pelo punk, sempre com uma carreira irregular, marcada por mudanças constantes de direção. Foi só com este seu quinto álbum que Richard Melville Hall conseguiu unir finalmente todas essas influências num som acessível e emocionalmente forte. Canções como “Porcelain”, “Natural Blues” ou “Why Does My Heart Feel So Bad?” tornaram-se impossíveis de evitar no início dos anos 2000. E quando digo impossíveis, acreditem em mim, estava tudo em todo o lado ao mesmo tempo.
Esse impacto continua vivo na memória de quem o ouviu na altura. Duarte (nome fictício) recorda-o sem hesitação: “9/10, excelente, ainda o outro dia estive a ouvir, comprei na altura e ouvi mil vezes”. Mas acrescenta uma nota curiosa sobre a mudança de perceção cultural em torno do artista: “Depois entrou-se numa cena que Moby não é cool”. A observação ajuda a perceber um fenómeno comum a muitos artistas que atingem popularidade massiva: o sucesso excessivo acaba, por vezes, por gerar rejeição.
E Play foi, de facto, vítima do seu próprio alcance. Num movimento original para a época, todas as faixas do disco foram licenciadas para filmes, séries, videojogos e anúncios publicitários. Tiago (nome fictício) resume bem essa sensação: “Muito marcante e influente, depois overdose, mas é bom”. Também Cátia (nome fictício) admite ter-se afastado do álbum durante anos: “Na altura fartei-me porque algumas músicas foram levadas à exaustão… anúncios, tudo”. Ainda assim, reconhece-lhe mérito duradouro: “Voltei lá recentemente e envelheceu bem”.
Nem todos, porém, colocam o disco num pedestal. Carlos (nome fictício) reconhece a importância histórica de Play, mas relativiza o entusiasmo: “Gosto, foi marcante quando apareceu, mas não lhe dava 5 estrelas”. Já David (nome fictício) é mais direto: “Não sou fã”. E há ainda espaço para a ironia geracional, como demonstra Bruno (nome fictício): “Primeiro é Coldplay, agora é Moby, Alex? Sinceramenteeee”. Apesar disso, o consenso parece inclinar-se para o reconhecimento do impacto cultural do álbum. Pedro (nome fictício) resume-o em poucas palavras: “Muito muito bom”, Paulo (nome fictício) acrescenta que “É um grande álbum do Moby” e, last but not least, Mafalda (nome fictício) constata que “ouvi até à exaustão, gosto bastante do disco e babei com a performance no Coachella, enorme quem me dera e ainda este fds disse: se alguém souber que ele vem à Europa, que me avise” (vem, mas não a Portugal, datas aqui para quem interessar).
Na opinião de Alex (nome real), naturalmente mais pertinente do que todas as outras recolhidas para este retrato, é um disco que vive dos seus enormes singles, “Porcelain” à cabeça, mas também “Why Does My Heart Feel So Bad?”, mas acaba por ser muito repetitivo nas letras (em “Find My Baby” a mesma frase é proferida 23 vezes), um pouco insolente mesmo, e com alguns momentos instrumentais dispensáveis. Talvez a melhor forma de olhar para Play hoje é vê-lo como um disco profundamente associado ao seu tempo, massificado até à exaustão, que jovens que não o apanharam na altura simplesmente nunca ouviram ou ouvirão (Ana, nome fictício, respondeu um claro “Não sei se sei qual é”), mas que continua a revelar qualidades reais quando lá regressamos. Mais do que um fenómeno comercial, permanece como um retrato sonoro muito específico do final dos anos 90 e de uma porta de entrada para a música eletrónica a um segmento de público que não estaria para aí virado. No ano seguinte, os Radiohead atiraram-nos Kid A e tudo passou a ser diferente.