Reportagens

Manel Cruz || Capitólio

Manel Cruz toca numa sala cheia como se estivesse rodeado de amigos, na sala de sua casa. Durante duas horas, a voz de Ornatos Violeta (e de Supernada, e de Pluto) e o responsável pelo projeto Foge Foge Bandido apresentou no palco do Capitólio o primeiro álbum ao fim de sete, Vida Nova e por quem já declarámos o nosso amor eterno.

Manel Cruz chega descontraído, apenas com 15 minutos de atraso. Não é alheio aos palcos e sabe que será bem recebido por um Capitólio esgotado. As previsões não enganaram e a informalidade com que se apresenta só nos faz gostar ainda mais dele. Nem cumprimenta, ataca logo “Do Buraco” e só depois de dar as boas vindas com música se dirige ao público. E a partir daí o diálogo foi constante: da plateia vinham frases soltas como “És grande, c****!” e a todas Manel ia respondendo, ao longo de todo o concerto, mesmo quando não conseguia perceber.

Entre os temas do álbum novo intercalados com muitas faixas de Foge Foge Bandido, que fizeram as delícias do público, os novos temas foram já sendo reconhecidos, como foi o caso de “Ainda não acabei”, expressão que Manel repetiu em loop no final da música, com o público muito próximo da apoteose, o que o levou a sorrir no final: “Bonito.” “O Navio Dela” já tinha vozes em coro a acompanhar o músico, tocando a guitarra que o acompanha desde o início da carreira, com o famoso autocolante do tubarão, apelando à nostalgia.

Ao tocante momento, com o público ao rubro, seguiu-se “Canção da Canção Triste”, um regresso à “toca do bandido” – e de repente os músicos que o acompanham – Nico Tricot, Eduardo Silva e António Serginho – desaparecem do palco. “Isto também é inédito, despedi a banda toda”, brinca Manel. Sentado numa cadeira branca, ao fundo, apenas com um holofote a iluminá-lo, vai afinando o ukelele, perguntando se soa bem porque tem uma corda nova, assim, como se estivesse rodeado de amigos.

Já antes Manel Cruz tinha tido um problema no teclado e perguntou mesmo se havia alguém na plateia que percebesse do assunto. “Desliga e volta a ligar!”, ouviu-se, como se se estivesse em casa. Manel contornou, tocando outra música, e quando resolveu o “problema” confessou que era um pedal que ainda não dominava que não estava da forma que devia estar. E nesta ligação com o público, na interação, nos diálogos e piropos que levam Manel a responder e a sorrir se vai criando a comunhão e empatia – e o respeito pelo artista.

Respeito esse que se viu sobretudo quando, depois de afinar o ukelele, Manel começa a tocar em acústico, “O Céu Aqui” – um silêncio profundo numa sala esgotada e até mesmo um grito de encorajamento de um espectador foi mandado silenciar com vários “shiuuu” convictos. Um momento de comunhão perfeita entre artista e público, que terminou numa apoteose de palmas. E do local onde nos encontrávamos, ao contrário do que seria normal num momento tão bonito, nenhum telemóvel foi erguido para captar imagens.

Entre os temas mais melódicos e tristes do novo disco ao experimentalismo e rock mais barulhento de Foge Foge Bandido (“Tirem o Macaco da Prisão” levou a loucos passos de dança), houve momentos para todos os gostos, num espetáculo bem composto e que encheu todas as medidas.

Nem se ouviu o habitual grito de “Toca Ornatos”, talvez por a banda ter regresso previsto aos festivais de verão. Ainda assim, ao ver que depois do segundo encore, previsto (com a excelente “Borboleta”, de Foge Foge Bandido), o público não arredava pé, Manel voltou com os seus músicos ao palco e atacou “Capitão Romance”, debaixo de uma ovação gigante e tantas vozes a cantar que o próprio cantor quase não se ouvia. Houve abraços no público, abraços no palco, toda a música cantada por todos, plenos pulmões a berrar “Eu vi mas não agarrei” e caras de felicidade e incredulidade espalhadas por todo o lado.

E depois de, mais uma vez, o público não arredar pé, Manel volta com novo mimo: “Não Aldrabes”, de Foge Foge Bandido, música que, segundo ele, não ensaiavam há muito tempo mas que era o local certo para tocar: “é o que estamos aqui a fazer, a aldrabar”. Duas horas e quatro encores depois, o público finalmente saciado, Manel e banda despedem-se, sorrisos e, de certeza, de coração tão cheio como o nosso.

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Fotografia: Inês Silva

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