Há sempre algo de muito especial no cruzamento entre a sombra e a luminosidade. Em todas as artes isso acontece, e portanto não é de estranhar que também na música tal facto possa ser verificável. Quando nos embrenhamos na escuta da discografia de Antonio Luque (através da personna artística que dá pelo nome de Sr. Chinarro) somos levados a crer, num primeiro e talvez ingénuo momento, tratar-se de um percurso quase bipolar, tal o contraste gritante desse já longo caminho de uma quase trintena de edições, entre singles, eps, álbuns de estúdio e um disco de raridades. É fácil marcar fronteiras, separando bem as águas sonoras desses seus trabalhos, coisa que, mesmo sendo discutível, não andará muito longe do que aqui propomos: do primeiro ep intitulado Pequeño Circo (1993) até Cobre Cuanto Antes (2002) estamos na presença de uma fase mais sombria e densa da sua obra. Mais melancólica, fechada sobre si mesma, mais tímida. Depois, como momento de transição para uma vertente mais solar do seu universo sonoro, o disco El Ventrílocuo de Sí Mismo (2003) faz muito bem a ponte para um também já longo percurso de trabalhos mais antenados com as exigências de uma pop bonita e orelhuda, mais luminosa, com salero suficiente para a ela nos rendermos após uma primeira e simples audição. É El Fuego Amigo (2005) que inaugura esse novo caminho, um pouco timidamente, é certo, mas com a segurança que uma canção como “El Rayo Verde” pode bem testemunhar. A partir daí, e até ao recente El Progreso (2016), a caminhada tem sido efetuada sem passos em falso, rumo à construção de uma identidade sonora bem vincada e bem diferente da inicial. No entanto, e embora dando como boa a facilidade da divisão acima proposta, talvez seja melhor apertar um pouco mais a focalização auditiva da obra de Sr. Chinarro, para que a ingenuidade inicialmente referida não crie raízes mais profundas do que aquelas que, de facto, também tem. Assim seguirá o nosso texto, escolhendo três discos de cada uma das fases propostas, detalhando-os de forma a que se perceba que naquilo que os distingue haverá também alguns traços de união.
Tendo como ideia central os álbuns gravados (retirando, portanto, singles, EPs e o disco de raridades do material aqui em apreço), o primeiro longa duração de Sr. Chinarro foi uma autêntica pedrada no charco no panorama musical da musica espanhola da primeira metade dos anos 90. Gravado em Nova Iorque, Sr. Chinarro (1994) é um importante momento para a música indie do nosso país vizinho. É um imenso lençol de nostalgia, em que a infância cantada ocupa boa parte do disco. Povoado por sombras e lugares onde a escuridão espreita a cada passo (há até uma versão de “Leave Me Alone”, dos New Order), o disco inaugural de Antonio Luque não é fácil, não tem hits, não obriga a anca e os pés a movimentos dançáveis. Mas é, por outro lado, um trabalho de grande beleza, de início firme de afirmação de uma linguagem muito particular no universo pop-rock espanhol, em que as óbvias marcas anglo-saxónicas surgem temperadas com um travo sonoro andaluz, que mesmo um pouco escondido se pode entender como fundamental para a construção de Sr. Chinarro. Se em “El Collar”, “Campanario”, “Velvet Eye”, “Escapa Amanecer” (que faz lembrar os bons e velhos The Cure) e “Hate” somos cercados por silhuetas sonoras de mistério e segredo, ambiente maioritário em todo o álbum, há também espaço para algum escape, que embora tímido (estamos, aliás, na presença de um disco em que assenta bem esse adjetivo) não deixa de se insinuar. As canções “Mi Caracola Loca” e “Niño Helado” provam-no razoavelmente bem. E depois, Sr Chinarro tem ainda a superlativa “Bye Bye”, que cabendo bem no lote anterior, destaca-se por ser o tema mais ensolarado do disco, canção de fim de tarde, dengosa, canção para ser vivida entre amigos de copo na mão, em que todos cantariam a uma só voz os versos “Culebras en el telar, / Es tu carnaval, rival en la sombra, / Risueños de sobra, bye, bye.”
Três anos depois, Antonio Luque voltava à carga com outra obra imprescindível. Estávamos em 1997, e a indie espanhola recebia nas mãos El Por Qué de Mis Peinados, para engrandecimento da sua história. A incontornável revista catalã Rockdelux afirmava que este era um “Disintegration aflamencado”, e tinha muita razão no que dizia. Antonio Luque não gostou da grafia errónea do título na capa do álbum, mas, em contrapartida, a crítica incensou-o, fazendo dele, na altura em que saiu, o que El Por Qué de Mis Peinados ainda hoje representa: um marco histórico da música moderna ibérica, embora totalmente desconhecido aqui no nosso retângulo geográfico. Tudo é perfeição nas onze canções nele presentes. Há sexo, amores enganosos, alguns dos mistérios da premência da idade já mais adulta do que juvenil, sempre num tom elegantemente monocórdico, sendo que tudo isso confere ao disco uma certa aura de mágoa, inquietação, angústia, e nunca esses predicados soaram tão bem num disco de Antonio Luque. Pontuado pela voz tímida (a timidez, de novo, a indiciar a canção “Tímidos” de Ronroneando, tantos anos depois?) de Sandra, antiga vocalista de Hébridas, grupo sevilhano dos anos 80, o álbum está repleto de temas fortes, sendo “Quiromántico”, talvez, o mais emblemático. Mas há mais, muito mais, como a inquieta “A La Luz de Dos Velas”, “Miramos En La Caja”, “Diario de Pitágoras” ou “El Libro Gordo de Peut-Être”, uma das minhas preferidas em todo o álbum. Se El Por Qué de Mis Peinados deixa de parte alguma melancolia sonora que impregnava os anteriores Sr. Chinarro e Compito (1996), ele é também bastante emocional (e emocionado), carregado de texturas sonoras em repetição (quase em loop), e marcado por letras obtusas, ínvias, impenetráveis, transbordantes de desilusões várias, mas tão próprias da condição humana quando em trânsito para a idade adulta.
O disco seguinte, lançado apenas alguns meses depois de El Por Qué de Mis Peinados, embora já em 1998, foi o segundo disco de Sr. Chinarro que alguma vez ouvi, depois de ter inicialmente travado encontro com o estranho e difícil La Primera Ópera Envasada al Vacío (2001). Sendo o segundo, foi o primeiro pelo qual verdadeiramente me apaixonei. Falo de Noséqué-Nosécuántos, obra que me acompanha há muitos e bons anos, sempre próxima dos meus ouvidos, e que tantas vezes me resgata da monotonia pop que se ouve por aí. Continuação perfeita do disco de 97, Noséqué-Nosécuántos encerra pequenas maravilhas, canções de subtilezas várias, obra maior da indie espanhola de finais do século passado. Antonio Luque vivia, naquele tempo, um período de enorme criatividade, pelo que não é de estranhar apresentar-nos canções fantásticas como “El Idilio”, a que abre o disco, e que de imediato nos lança num estado de contagiante alegria (mesmo que comedida, sem histerismos juvenis à mistura), sobretudo quando as palmas e a voz de Sandra (num plano mais fundo, quase abafado) se fazem ouvir, e podemos cantar com ela, de sorriso sonhador posto no rosto, os versos “Quiere teñir los charcos con las gitanillas, / con claveles, forman las chiquillas.” Segue-se a melódica “Los Ídolos No Comen”, também perfeita, também etérea, também eterna, para ouvir e dançar com o estilo que a canção exige, de cabeça baixa e olhos fechados. Se os primeiros dois temas do disco se movem na direção da luminosidade pop dos discos futuros, “Una Manzana Más Abajo”, “Club 8 que 80” e “Un Burro Volando” voltam a trazer ao de cima os sombreados de alma de trabalhos anteriores, embora já com uma tonalidade não tão densa, como que a libertar-se de espartilhos sonoros que teriam, forçosamente, de ficar para trás. Sr. Chinarro é uma armada de rumo bem traçado, e “Informe Para Un Barco Vikingo”, “Santateresa” (que hit perdido, meu Deus!) e “Puentes de Plata”, que encerra o álbum, mostram que há um horizonte novo a traçar-se aos poucos na cabeça de Antonio Luque. A propósito dessa grande mudança que aconteceria um pouco mais à frente na discografia de Sr. Chinarro, o papel de J (Juan Rodríguez ou apenas J, líder dos Los Planetas) foi determinante.
Passemos então aos discos mais solares de Antonio Luque. Os três que vos trago são, todos eles, momentos marcantes da sua quase renovada carreira, diga-se, uma vez que as mudanças são, efetivamente, bastantes substantivas, e o primeiro deles não poderia ser outro: El Mundo Según, álbum saído em 2006. Desde os primeiros segundos, quando o pomos a tocar, percebemos tratar-se de um outro Sr. Chinarro, este que ouvimos nas 12 canções que o disco comporta. Todas elas, sem qualquer exceção, mostram um outro compositor, agora capaz de assumir o que sempre lhe tinham dito, que poderia fazer canções não tão “emborronadas”, como fez durante muitos anos, podendo lapidá-las com requintes de maior polimento e perfeição. Foi exatamente isso que aconteceu. Se é verdade que o efeito imediato foi ter mais gente a ouvir e a gostar do seu trabalho, também se sabe que perdeu alguns dos seus fãs mais antigos, desinteressados agora com o novo rumo descaradamente mais pop e mais límpido das suas composições. No entanto, a obra de Sr. Chinarro nunca baixou os níveis de exigência, e o músico foi sempre mostrando as mesmas capacidades artísticas de exceção que fizeram (e fazem) dele um nome seguro e respeitado em toda a Espanha. As canções que melhor documentam essa viragem de direção são, eventualmente, “Esplendor En La Hierba”, “Del Montón”, “Ni Lo Sé Ni Lo Quiero Pensar” e “Angela”, todas ensolaradas como nenhumas outras até então, embora no mesmo disco surjam outras, mais tranquilas mas igualmente belas e delicadas como “El Lejano Oeste” (esta com menção a Portugal, note-se), “Militar” ou “La Última Cena”. A verdade é que El Mundo Según foi bastante aclamado, sendo que para alguma imprensa da especialidade chegou mesmo a ser considerado Disco do Ano, o que não surpreende, tal a excelência do lote de temas que Sr. Chinarro mostrava nele. As bocas de espanto poderiam manter-se abertas, uma vez que apenas dois anos depois, outra obra-prima surgiria para alegria de muitos, e desespero de alguns.
Ronroneando, o disco de 2008, abria, de rajada, com as fabulosas “Los Ángeles”, “Tímidos” (espécie de hino à sua própria timidez, agora cada vez menos evidente?), “Los Amores Reñidos” e “Anacronismo”, todas bem cheias de vida, bem cheias de graça, sempre com excelentes letras a acompanhar essas melodiosas canções. No entanto, nem tudo é festa em Ronroneando, e nem todas as canções são fogueteiras. Ouça-se, por exemplo, as mais que lindas “El Grand Poder”, “San Antonio” e a derradeira “A Mano”. A diferença é que, depois da mudança de estilo operada, o que antes eram admiráveis borrões, rascunhos, esboços em forma de canções, agora eram esplendor, magnificência, fulgor e luzimento. Voltavam algumas guitarras a lembrar The Cure ou The Smiths, dois nomes que sempre fizeram as delícias de Antonio Luque, como bem se pode detectar na lindíssima “La Resistencia”, uma das minhas preferidas de todo o álbum. O disco é bastante diverso, musicalmente falando, o que já acontecia no seu trabalho anterior. A forma cada vez mais límpida como se apresenta enquanto compositor também se nota já nas letras das suas canções, cada vez menos enigmáticas, mas sempre com o cunho literário (não há como escolher outra palavra) a que nos habituou. Consta que as palavras de “El Gran Poder” são exatamente as mesmas que escreveu para um mail que mandou a uma rapariga. No entanto, alguma acidez nas mensagens de desamor de duas ou três canções poderiam fazer recordar alguns fantasmas de outros tempos. Mas apenas isso. Sr. Chinarro seguia triunfante, cada vez com mais seguidores, embora se fosse afastando da imagem de quase culto religioso que lhe era devotado por fiéis chinarristas da sua primeira fase. Não se pode ter dois mundos, e aquele que Antonio Luque escolheu para habitar continuava a mostrar-se mais iluminado do que sombrio.
E assim chegamos ao último disco escolhido para este artigo. Trata-se de Presidente (2011), trabalho que demorou a aparecer, uma vez que passaram 3 anos entre este e o anterior, o que para Antonio Luque é um tempo de intervalo bem longo, acreditem. O que aconteceu pelo meio? Um projeto sem grandes consequências (Los Boquerones en Vinagre), mas que, curiosamente, apresentava um som bastante próximo das primeiras obras de Sr. Chinarro, e um livro intitulado Socorrismo (2009), o que não causará grande surpresa, tal a veia literária a que Luque sempre nos habituou. Presidente é um belíssimo disco, com a energia dos anteriores, sobretudo em temas como “Una Llamada a La Acción”, “El Boxeo”, “Vacaciones En El Mar” e “San Borondón”, esta menos rockeira e mais folclórica, digamos assim. Curiosa é também a canção “La Lección”, principalmente por via da especialíssima participação do seu filho, Guillermo Luque, numa espécie de foxtrot e divertimento paterno, com letra engraçadíssima. Mas o disco tem outro enredo, mais sombrio, falho do brilho festivo das outras canções já mencionadas, embora repletas de delicadeza, desencanto e nostalgia. Talvez nelas resida a melhor parte do disco. São extraordinariamente belas e perturbantes, por exemplo, as canções “Babieca”, nome do lendário cavalo de El Cid e “María de Las Nieves”, em cuja letra habita o seu misterioso cadáver, balada cantável até nos faltar a voz, sobretudo devido aos versos do lindíssimo refrão, que vai tendo nuances narrativas, mas que se inicia assim: “María de las Nieves se encerró en mi habitación / Tiene los pies fríos / Y un puñal siniestro sobre el camisón / María de las Nieves / Se me rompe el corazón”. No entanto, há ainda que contar com as rockeiras “Fotos No” e “Una Frase Socorrida”, até que o disco termina com a fragilidade encantatória de “El Cuchillo y El Pastel” e a bem disposta “Un Final Feliz”.
Feito este percurso onde a penumbra e a luz na obra de Sr. Chinarro se dão a conhecer, resta-nos referir que o propósito de todo este já longo texto não é diferente de todos os outros textos que por estas páginas altamontianas vão passando: mostrar o nosso amor pela boa música, pelos músicos e bandas da nossa adoração, pelas canções e discos que são a essência de tudo o que escrevemos. Que o percurso de Sr. Chinarro se faça ainda por mais e muitos bons anos! Nós estaremos cá para vos dar conta desse risonho futuro!