Michael e Brian D’Addario, os harmónicos “irmãos limão”, voltam com mais um brilhante álbum e, a este ponto, começo a desconfiar que sempre tiveram consigo um gerador infinito de canções de 3 minutos, ao estilo dos anos 60, com harmonias vocais de deixar cair o queixo. É que, ao quinto álbum, começa a parecer fácil.
Inovar parece sempre ser o primordial objetivo da música. Quem não inova é um bocado mal visto e pode ficar injustamente associado a atividades de mau nome como a preguiça ou a falta de originalidade. No entanto, consoante os casos, não se deve desvalorizar o corajoso ato de “ficar na mesma”. É preciso muita confiança no próprio trabalho para ficar na mesma, como os Lemon Twigs neste novo álbum. Ficaram na mesma e isso é bom: recebemos mais da boa música que sempre fizeram.
Por isso, eis-nos aqui, com este Look For Your Mind!, (mais) um álbum da influência inegável dos anos 60 e 70 – a sua base de referências desde 2016 – com todos os seus tiques e linguagem melódica, aos quais os Twigs juntam o seu brilho característico: sobreposição de vozes, instrumentação cristalina, cheia de texturas e com um acompanhamento ocasional de instrumentos de sopro ou cordas, ou os dois; um estilo que os coloca frequentemente junto ao subgénero power pop, que se iniciou nos anos 70 e que encontrou várias formas de expressão em décadas subsequentes (Buzzcocks, XTC, Teenage Fanclub, Jellyfish, Nick Lone etc.). É principalmente caracterizado por um cuidado quase maternal com os sagrados “arranjos” e pelo seu uso libertino de harmonias de voz, que nunca precisam de permissão para aparecer. Uma descrição que se adequa perfeitamente aos maneirismos dos irmãos D’Addario.
Versados nos vários formatos de canção, apesar de não mudarem muito o seu estilo, os Twigs fazem de tudo. Excelentes baladas como “Mean to Me”, enérgicas músicas rock como “Look For Your Mind” e ainda soft rock hipnotizante como “Nothin’ But You”. Nesta última, pode-se até ouvir com mais nitidez a sua “personalidade”, onde se afastam dos seus largamente recorridos objetos de imitação (Beatles e Beach Boys). Não se trata de um outro estilo, mas, sim, de um outro tom.
Tom que não é o de “A Dream Is All We Know”, explosivo, nem o de “Everything Harmony”, delicado. Oiço em “Look For Your Mind!” um tom relaxado e cuja descrição precisa só encontro na expressão inglesa “laid-back” (ou recostado). Oiço-o nos efeitos das guitarras de “Fire and Gold”, quentes e envolventes (um possível slogan para uma marca de luvas) e que nos faz querer passar o resto do dia a boiar no meio do Oceano Pacífico. Só que não é apenas isso, o tom transmite também o relaxamento de quem, de forma respeitosa, se está um bocado nas tintas. “Nothin’But You” e “Yeah I Do” são portadores desse tom que está entre uma união mística com a natureza e o espírito “não quero saber” de um skater de 16 anos com uma camisa florida e esvoaçantes cabelos compridos. PS: Liricamente não tem nada a ver com o que disse até agora, são os temas do costume: amor e co.
Portanto, servindo com Look For Your Mind! praticamente o mesmo produto, houve uma entrega diferente. Os Lemon Twigs mostraram que não é preciso inovar para singrar na música. Porque, aliás, inovar é só uma forma chique de dizer “inventar”, verbo oriundo da famosa expressão “Ò Manuel, não inventes.” Mais vale estar quieto e fazer aquilo que sabemos fazer bem.