O disco definidor de Jamiroquai é uma bomba funk carregada de energia e de grandes canções.
Jay Kay, o vocalista, fundador e grande mentor dos Jamiroquai, chegou a meio da década de 90 à procura de algo diferente. Para trás estavam dois óptimos discos de funk, Emergency on Planet Earth (1993) e The Return of the Space Cowboy (1994), que tinham deixado a sua marca e sido bem sucedidos sobretudo no Reino Unido. Mas para ele isso não era suficiente, queria mais. Além disso, a gravação do segundo álbum tinha sido marcada pelo descontrolo no consumo de drogas. Era altura de iniciar um novo ciclo.
Desde o início – e de certa forma até hoje – Jay Kay e os Jamiroquai sofreram com a acusação de serem uma cópia postiça – e pior ainda, inglesa – dos sons e da vibe do génio Stevie Wonder, ídolo absoluto e assumido de Kay. E se os primeiros discos mostravam uma banda refém dessas referências mas capaz de se estender para outros territórios, também é verdade que havia ali um lado exploratório, derivativo, deambulatório, que se dava alguma credibilidade indie também enchia os álbuns, aqui e ali, de alguma palha. Útil, sem dúvida, para quem passava o dia a fumar ganzas (pelos meus cálculos, cerca de 70% dos ouvintes de Jamiroquai), mas que impedia que dessem o salto seguinte.
Se o primeiro trabalho tinha um conceito ecologista, e o segundo um delírio espacial, o terceiro descia à terra em busca de prazeres mais mundanos. Travelling Without Moving é “cars, life and love”, ou seja, a busca de bons momentos. Os Jamiroquai tornam-se menos sérios e menos evangélicos e decidem abraçar definitivamente as pistas de dança, a alta velocidade, as miúdas, a noite.
Em termos de sonoridade, o disco não é nenhuma ruptura radical face ao que viera antes; era sim uma depuração. Um maior cuidado no estúdio, maior poder de síntese, maior foco nas canções e menos no exercício estilístico ao estilo jam funk. E a aposta em fazer singles que, naquele momento, podiam fazer os Jamiroquai passar de uma banda que vendia muitos discos em Inglaterra para uma banda que corria o mundo a encher palcos de festivais.
Travelling Without Moving está cheio de grandes malhas, mas à cabeça estão três singles que continuam a ser das suas músicas mais conhecidas: “Virtual Insanity”, “Cosmic Girl” e “Alright”, todas bem acondicionadas na primeira metade do disco, não tinham como não puxar o colectivo para o patamar que veio a atingir.
Numa altura em que a MTV era importantíssima e passava boa música alternativa em grande quantidade, não podemos esquecer o contributo dado pelos vídeos deste disco. “Virtual Insanity” – canção que previa, há 30 anos, o que o uso das tecnologias sociais nos iriam fazer – é uma obra-prima visual e instantaneamente reconhecível: Jay Kay numa sala, cantando e dançando como só ele sabe fazer, com os seus míticos Adidas Gazelle, enquanto a mobília se vai rearranjando e mexendo sozinha à sua volta. Brilhante, e um factor absolutamente fundamental na explosão mediática dos Jamiroquai. Seguiu-se “Cosmic Girl”, uma deliciosa bomba de dança, servido por um vídeoclip de Kay e outros membros da banda a rasgarem estradas de montanha fora montados em Ferraris (obsessão de Kay até hoje). “Alright” é mais simples, mas terrivelmente eficaz enquanto single.
Numa altura em que ser diferente, alternativo, do contra, era ainda importante, e em que mostrar lados diferentes do seu universo era sinal de profundidade, Travelling Without Moving não está isento de alguns exercícios dos discos anteriores. Há dois temas assentes na sonoridade do didjeridoo, “”Didjerama” e “Didjital vibrations”, há um reggae indistinto em “Drifting along”, há baladas como “Everyday” ou “Spend a Lifetime”, há soul movida a metais em “You Are My Love”, há funk e acid jazz em “High Times” ou “Funktion”, enquanto a faixa-título é uma pérola subvalorizada, toda ela baixo funk e bateria propulsora.
Saindo da época imperial do grunge e do subsequente britpop, a explosão internacional dos Jamiroquai teve ainda um outro mérito: meteu os putos do “ruock” a ouvir outra sonoridades e fê-los perceber que, afinal, a música também podia servir para dançar e ser simplesmente hedonista. Apesar de Travelling Without Moving ter sido orgulhosamente feito totalmente com instrumentos “reais”, foi um passo no caminho para uma geração se ir abrindo aos sons mais electrónicos, juntamente com o advento do trip-hop ou do lounge.
Apesar de, hoje em dia, haver uma certa e inexplicável aversão aos Jamiroquai (parece que não é cool gostar-se desta banda), o grupo de Jay Kay não tem um único disco mau e tem muitos bastante bons. Mas este foi aquele em que o grupo e os humores do mundo se alinharam cosmicamente.
Mesmo que 30 anos depois, siga a dança.