São 20, as velas que aqui sopramos, daquela que é, desde o primeiro momento, a minha eternal flame. Real Life está de parabéns este ano. Joan As Police Woman, essa, está sempre.
A memória pode falhar-nos em datas, confundindo-nos até ao quase esquecimento, assim como em outros factos, mas enganar-se com as coisas do coração, será bem mais difícil acontecer. Assumindo de barato esse eventual erro cronológico, talvez estivéssemos em abril do ano de 2005, no Coliseu de Lisboa. O concerto era o de Rufus Wainwright e o canadiano havia lançado Want Two. Sala bem composta, quando sobe ao palco uma mulher platinada no cabelo, sozinha, apenas ela e um conjunto de canções. Foi amor à primeira vista, amor à primeira audição. Joan Wasser apresentara-se como Joan As Police Woman e a primeira detenção que fez foi a minha. Irremediavelmente.
Assim sendo, resta esclarecer o propósito deste texto. O primeiro álbum que Joan As Police Woman libertou em nome próprio faz agora vinte anos, o que parece uma barbaridade. É de novo a memória que nos baralha. Como é que tão pouco tempo pode traduzir-se em duas décadas? A verdade é que pode, mas como dizia há pouco, o coração não engana, mesmo quando a vida passa de forma veloz e nos turva as ideias. No entanto, esses primeiros momentos, o do Coliseu dos Recreios e o de ter Real Life nas mãos quando foi comercializado (primeiro em cd, bem mais tarde em vinil, ambos devidamente autografados com um Carlos! Thank You!!!) permanecem intactos no coração.
Real Life é um álbum perfeito, que se ouve ainda hoje com o agrado da surpresa do primeiro dia. Não há uma falha, uma canção menor, algum tema que nos dê vontade de carregar no botão do comando para que a faixa seguinte se faça ouvir antes de tempo. Pelo contrário, o que devia era haver um em que se carregasse para que o tempo não passasse e estivéssemos com Real Life a vida inteira. Essa unreal life seria, por assim dizer, ainda mais perfeita do que o disco que agora celebramos.
Neste preciso momento, enquanto redijo esta precisa linha de texto, é “Save Me” que toca, no seu sincopado ritmo. Joan canta “I don’t wanna live for tomorrow”, enquanto tantos outros versos e canções foram já ficando para trás, como a inicial, mágica e hipnótica “Real Life”, quase insuperável no bom gosto e nas palavras, como estas, que me levam sempre a um exquisit delírio de pele e alma: “It’s true what they say about me / That I’m out of my mind, but I think that you like it / So take the chance, be reckless with me”. Foi, na verdade, sempre isso que fiz com Joan As Police Woman, atirando-me aos seus braços sempre que posso, em todos os discos que fez, em todas as atuações a que assisti, sempre que nos encontrámos depois de terem acontecido, até em trocas de mensagens telefónicas via Instagram. Da última vez, depois de boa conversa após o concerto na Fundação Oriente, ainda me convidou (tão simpática!) para jantarmos todos, ela, produção, alguns amigos e eu, que declinei por razões que a memória (a tal!) fará por esquecer, para que eu não me torture até ao fim dos dias.
Mas voltemos às canções, apenas a mais um par delas para que não me torne exaustivo, uma vez que o que devemos é ouvi-las todas, isso sim, e em repeat. “Eternal Flame”, por exemplo, é para rodar até ao fim do mundo, com aquele jeito dela (tão querido, tão querida!) de dizer as coisas que diz, como se as dissesse apenas para mim (ai, meu Deus!): “Yes, yes, I wanna have you now”, até eu corar por inteiro. Lembro ainda “The Ride”, quando Joan canta “As long as you follow me / This is what I do, like I do / I’ve been on the ride before / It never tops at all”, metendo-se de novo comigo (e com mais ninguém, percebem?), à espera de uma resposta que valha a pena, e que tem valido sempre, mesmo que Joan não se dê conta dela, que já há muito a dei. Uma última referência, que o texto vai longo e vocês precisam de terminar de lê-lo para irem ouvir Real Life – o tema “I Defy”, perfeito para ambas as vozes, a de Joan e a de Antony (and the Johnsons, atual Anohni), não esquecendo aquele breve piano solo que me mata e me dá vida ao mesmo tempo.
Por fim, fecho estas palavras de forma circular, lembrando a urgência em ouvir e estimar muito Real Life, que aos vinte anos de idade já ganhou a vida eterna. O disco, as suas canções, a voz que as compôs e que as canta de forma soberba e apaixonada. E por falar nesse exaltado sentimento que tantas vezes nos domina, confesso-me rendido desde o nosso primeiro encontro. Ela saberá disso, talvez… Da próxima vez, ganharei coragem. Até já, Joan. Não te atrases, please.