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Ilustres Desconhecidos: Nick Drake

Hoje falamos de Nick Drake, criatura triste de uma Inglaterra pastoral que já só existe no nosso imaginário – talvez o maior Ilustre Desconhecido de todos, que lançou três discos e morreu na miséria antes da sua música ser comoditizada para dar banda-sonora a anúncios de carros luxuosos.

Falar de Ilustres Desconhecidos, seja lá o que isso for, é obrigatoriamente sinónimo de falar de Nick Drake, e o único choque na colisão destes dois é a de não ter acontecido mais cedo. Uma lenda boa é uma lenda morta: e, apesar de ser complicado imaginar Nick Drake, que nunca sequer conseguiu cultivar uma estética suficientemente memorável (nunca sequer foi gravado em movimento) para ver a sua imagem copiada e re-copiada num louvor Warhol-iano que reservamos para lendas mortas mais identificáveis, gravou três discos cuja aura de triste enigma sobrevivem e enaltecem a sua trágica epopeia, recuperados anos e anos depois de morto e enterrado. É difícil imaginar um candidato mais apropriado ao título que aqui inventámos do que a sizuda criatura que, a dada altura, gerava tão pouco dinheiro enquanto músico que mal tinha dinheiro para comprar sapatos, e cuja arte acabou por ser comoditizada e re-empacotada num anúncio de carros americano para uma audiência hipócrita e adormecida.

Apesar de dolorosamente inglês, Nicholas Rodney Drake nasceu, na verdade, na distante Birmânia a junho de 1948, filho de um engenheiro e da filha de um general do Serviço Civil Indiano, mas cresceu no bucólico condado de Warkwickshire. Os testemunhos que o rodearam na sua criancice descrevem aquelas coisas que descrevem metade dos putos que crescem para ser seres humanos complicados: descomplicado, interessado a meias pelo desporto e pela música, aluno mais-ou-menos. Mas surge sempre um descriptor em tom de aviso: um rapaz que se cercava de uma redoma impenetrável que tornava hercúlea a tarefa de o vir a conhecer por dentro.

Ao virar da juventude, o interesse pela música começou a ferir as pautas, mas, mesmo assim, conseguiu saltar da universidade de Birmingham para a universidade de Cambridge, não antes de se arrastar por um período em Aix-Marseille, na sedutora França, na qual se embrenhou progressivamente mais na guitarra e principalmente no canábis. Regressado à cinzenta Inglaterra, mudou-se para o apartamento da irmã, atriz, em Londres, dividindo o tempo entre a escritura de cada vez mais canções e uma licenciatura em Literatura Inglesa para a qual se estava, no fundo, a marimbar. O desporto fora substituído pela droga, e foi num novo universo de companhias à sua semelhança que se cruzou, a meio da década de sessenta, com outro jovem músico, Robert Kirby, que viria a orquestrar muito dos seus primeiros dois álbuns. Com Kirby, Drake cruzou ganzas e gostos, descobrindo o mundo do folk britânico e americano, bebendo cada vez mais inspiração dos Donovans, Bob Dylans e Van Morrisons, até que se decidiu transformar num deles.

Foi Ashley Hutchings, baixista dos Fairport Convention, que chocou contra o jovem guitarista num dos seus bares de alterne e que não descansou até apresentá-lo a Joe Boyd, que, aos 25 anos, já produzira um punhado impressionante de discos e que começava a gerar burburinho dentro do género. Com Boyd e com a sua Island Records, Drake começou a gravar entusiasmaticamente o seu primeiro disco, que se viria a chamar Five Leaves Left e seria lançado em 1969. Mas o entusiasmo rapidamente ferveu para azedume entre Drake e a equipa de produção – enquanto Boyd era adepto do método “George Martin” de “transformar o estúdio num instrumento”, Drake lutava por um som bem mais orgânico. As tensões de pré e produção evoluíram para pós, e o desenrolar do disco para o público revelou-se ainda mais acidentado do que já ameaçava ser graças à relutância do difícil Drake em dar entrevistas ou concertos. A crítica também não morreu de amores pelo projeto: a NME acusou-o de pouca variação (crítica que ainda hoje deve doer reler, depois de revisitar um disco que nos deu temas desde a encantadora “Song For Mary Jane” à sinistra e Delius-iana “River Man”. Mas pronto).

Após a desilusão de Five Leaves Left, o natural seria talvez regressar aos livros e exames e deixar a brincadeira de música de lado, mas Drake já estava demasiado afogado na fantasia de artista. Nove meses antes de concluir a licenciatura, Drake abandonou Cambridge de vez, para horror dos pais, vivendo de sofás em sofás até que o sempre paciente Boyd lhe pagasse um modesto quarto na cidade onde pudesse escrever e compôr. Sozinho, Drake funcionava com a precisão de um relógio de corda: mas em palco, peça central na carreira de um músico nos anos sessenta, falhava tão desastrosamente como falhara enquanto aluno – monocórdico, apático, nervoso e submetendo o público a longos períodos de silêncio constrangedor enquanto mudava pacientemente a tonalidade da sua guitarra quase de música para música. Já ninguém o conseguia ver à frente quando lançou Bryter Layter, em 1971 – um desastre comercial e crítico ainda mais doloroso do que Five Leaves Left à qual a Melody Maker apelidou de “uma mistura desconfortável de folk e cocktail jazz” (au…).

Boyd desistiu e a perda de um mentor, aliada à receção fraca ao seu esforço artístico, afundou Drake numa depressão ainda maior do que aquela que já e começava a agigantar dentro de si desde a sua infância aparentemente calma. A sua família encorajou a visita ao psiquiatra, à qual Drake cedeu: a receita? Potentes antidepressivos, sina que o enojava e envergonhava perante amigos, e que o preocupava em relação ao efeito que teriam aliados às quantidades cavalares de canábis que agora consumia. Os primeiros sintomas de paranóia alastravam-se: raramente abandonava o quarto, apenas para comprar droga ou tocar (em concertos cada vez mais erráticos e desapontantes que ninguém queria realmente ver). Drake começara a tornar-se lentamente um fantasma de si mesmo.

Inacreditavelmente, em 1971, procurou John Wood, engenheiro de som dos seus primeiros dois álbuns, com vontade de gravar mais música – uma vontade que, ao ouvir Pink Moon, resultado da iniciativa de Drake, mais parece uma necessidade gritante de exorcismo. Pink Moon, gravado em duas noites com apenas Drake e Wood no estúdio, é o disco que Drake sempre quisera fazer, fora o alcatifamento de arranjos de pressões exteriores que haviam entretanto desistido de fazer dele um produto comerciável. É o seu produto mais nu, frágil, e simultaneamente assumido e honesto, ao longo dos vinte e oito minutos de quase só voz e guitarra que o compõe. É quase como se estivesse aqui. E, quatro anos depois, já não estaria.

Mais uma vez, a inabilidade de Drake de promover os seus discos revelou-se fatal para o desenrolar comercial de Pink Moon, que tornou a desiludir forte e feio nas vendas. Arrasado, Drake exilou-se para a casa dos seus pais, sem dinheiro sequer para comprar sapatos, e sem força para sequer formar frases completas em conversa com família e amigos. Pegava no carro da mãe, dava voltas e voltas sem rumo até a gasolina se esgotar e esperar impávido que o pescassem do meio do nada, apenas para repetir a ridícula rotina no dia seguinte. A música, um sonho distante. Começou a reponderar com preguiça a insuportável vida que se seguia. Pensou no exército.

Mas algo estranho borbulhava dentro de si: um novo fogo, se bem que mais azedo do que contente, acendia-se, uma nova vontade de mais uma vez voltar a tentar fazer música – em telefonema com Woods, irritava-lhe ouvi-lo a chamar-lhe carinhosamente de génio: “se sou um génio, porque é que não sou famoso?” Até que um dia, de repente, tombou morto na cama de infância, depois de engolir uma dose impensável de antidepressivos. Um suicídio, disse a polícia. A família confundiu-se. Ainda há pouco queria ir gravar mais discos…

Nick Drake tinha apenas vinte e seis anos quando morreu. Não tinha amigos. Não tinha namorada. Não tinha sucesso. Apenas três álbuns que ninguém quis ouvir. Apenas uma personalidade distante e amarga que ninguém tinha pachorra para aturar. Mas os discos lá ficaram enquanto os seus restos mortais se desintegravam. E foram crescendo por si só na sombra de uma memória que ia desaparecendo: nos anos oitenta, o seu legado começou a tomar contornos, graças ao seu nome deslizar da boca de figuras como Peter Buck dos R.E.M ou Robert Smith dos The Cure, que o apontavam como uma influência improvável (que também não devia ficar nada mal em entrevista). Ouvir e elogiar a música de Nick Drake tornou-se sinónimo de um pedantismo cool de pessoa que se dá ao trabalho de vasculhar álbuns de capas bonitas em lojas de discos. Seguiram-se documentários e biografias que alimentaram o fascínio pelo poeta morto: e, enfim, no virar do século, o cúmulo da comoditização que faria Adorno revirar os olhos até ao fundo da cabeça – “Pink Moon” é pedido de emprestado para um anúncio da Volkswagen que invadiu os televisores de todos os americanos, e, a cada rolar da roda do lustroso veículo, era mais um indivíduo que descobria a beleza atormentada de Drake.

Hoje em dia, desconhecido não é um adjetivo que não soa bem antes do nome de Drake: é praticamente um nome de entrada para bebés a desenrolar as camadas intermináveis do vasto universo do folk que se fez em Inglaterra nos anos sessenta e setenta. Mas é importante recordar que Drake morreu na miséria, e ainda mais sublinhar o quanto este fator místico contribuiu imensamente para os cliques e as vendas que só começaram a aparecer quinze ou vinte anos depois da sua morte. A sua música não nos deixa esquecer que era uma criatura de uma sensibilidade que alguns gostam de apelidar “adiantada para os seus dias”: na verdade, é mais uma sensibilidade de Blake ou de Caeiro, de quem vê deus em rebanhos e ribeirinhas, que nos belisca e acorda para as sensações primordiais que esquecemos num mundo moderno e confuso. É um olhar intemporal mas talvez fosse demasiado estreito para os seus contemporâneos. Ou talvez não. Talvez estivessem apenas desatentos. Mas Drake é o maior Ilustre Desconhecido de todos os tempos, porque, ao recordá-lo, recordamos com certo masoquismo a ignorância do ser humano que não perde tempo a conhecer enquanto ainda há tempo, e a sua tragédia funciona para alimentarmos o orgulho de o recordarmos com tanto fervor quando já nem sequer há modo de lhe dar o feedback que sempre quis e nunca conseguiu.