Reportagens

IDLES || Lisboa ao Vivo

IDLES deram tudo, em concerto que nos deixou a sentir como se estivéssemos em 1977, no berço do punk rock, num qualquer clube de esquina de Londres ou Manchester.

Por esta altura do campeonato, só não conhece os IDLES quem anda muito desatento ou quem não tem sangue rock a correr nas veias. São claramente a banda certa no momento certo, em que o rock se tornou música para quarentões (bastava uma olhadela à nossa volta e era fácil chegar a esse número como média de idades dos presentes), que vão necessitando de doses constantes de riffs de guitarra para viver, intercaladas com baterias assolapadas, qual drogas às quais estamos agarrados. Ontem fomos brindados com doses cavalares, servidas em bandeja de prata pela banda de Bristol, que nos agarrou pelos colarinhos e nos gritou na cara, mas com todo o carinho e respeito do mundo.

No fundo isto é a grande variação dos IDLES face aos grandes ideais do movimento punk – eles querem mostrar a sua inconformidade pelas palavras, e não pelos actos; fazer a sua resistência pela alegria, e não pela violência – daí o nome do álbum Joy as an Act of Resistance, que Talbot, o vocalista, fez questão de nos lembrar várias vezes durante o concerto. As músicas da banda têm sempre uma mensagem por trás, e a cada uma que se iniciava, Talbot transmitia qual a mesma – “This is a song about immigrants”; “This song is about helping the ones who need”; “This is a song about a depression”. Como podem ver, temas pouco punk, mas claramente actuais.

Os dois álbuns que trazem na bagagem já permitem dar um concerto com o conteúdo e tempo certo, numa mistura entre ambos que resulta bastante bem. O início só poderia ser com “Colossus”, de Joy, pela forma como arranca, em crescendo, a cativar-nos aos poucos até se instalar e reinar. O setlist foi bastante bem construído neste aspecto, gerindo a tensão e a intensidade de cada tema. “Mother”, “Danny Nedelko”, “Television” foram os que geraram mais caos na molhada lá à frente (sim, os quarentões ainda fazem moshpits!), enquanto que “Well Done” foi deixado para o êxtase final, bem como “Rottweiler”. A interacção com o público foi incrível, Talbot vai bem para lá do clássico e fácil vocês são o melhor público, afirma isto com contexto, explica por que diz isso, é sincero a 100% tanto a gritar “I’m Scum!”, como a dizer que faz amigos em Portugal. Lá para o fim, em mais um momento extasiante, os guitarristas Mark Bowen e Lee Kiernan descem e vêm até ao meio do público buscar todas as garotas que encontram para irem para o palco, cedendo-lhes inclusivé as suas guitarras. É isto o rock n roll como o conhecemos, é esta a química que nos continua a manter viciados e a precisar das nossas doses.

Em suma, Talbot e companhia arrasaram. Vieram a Lisboa no momento certo das suas carreiras, dar um concerto no local certo da cidade, ao público que os soube merecer por terem acreditado que, ali, naquele instante eles eram a melhor banda rock do mundo. E contra este tipo de sentimentos viscerais não há argumentos racionais que valham.

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Fotografia: Francisco Fidalgo

Setlist:

  1. Colossus
  2. Never Fight a Man With a Perm
  3. Mother
  4. Faith in the City
  5. I’m Scum
  6. Danny Nedelko
  7. Divide & Conquer
  8. 1049 Gotho
  9. Samaritans
  10. Television
  11. Great
  12. Love Song
  13. White Privilege
  14. Gram Rock
  15. Benzocaine
  16. Exeter
  17. Cry To Me (Solomon Burke cover)
  18. Well Done
  19. Rottweiler