Numa noite de rock no feminino, o disco que marcou o regresso das Hinds teve em Lisboa o seu último capítulo ao vivo. Antes, as Lesma mostraram que o rock português tem sangue novo e atitude de sobra.
Viva Hinds foi o meu álbum favorito de 2024. Depois de andarmos desencontradas durante alguns anos, foi um prazer reencontrar as Hinds neste estrondoso regresso, cheio de canções rock urgentes, com harmonias desarrumadas e letras desempoeiradas, cantadas num inglês com um carregado sotaque espanhol. Por tudo isto, e por guardar bonitas memórias de quando as vi no Musicbox em 2016, recebi com tristeza a notícia de que a tour mundial de apresentação do disco não passaria por Lisboa. Justiça lhes seja feita: não se esqueceram totalmente de Portugal — estiveram no Festival Para Gente Sentada, em Braga, em 2024, e passaram pelo Vodafone Paredes de Coura em 2025, num concerto que, por infelizes questões técnicas, não me encheu as medidas —, mas parecia estranho encerrar uma era tão boa para as Hinds sem um concerto na capital do país vizinho. Felizmente, tudo se resolveu com relativa rapidez: quando Carlotta Cosials e Ana Perrote achavam que já não dariam mais concertos de Viva Hinds, receberam uma chamada com um convite para fechar definitivamente a tour do álbum na Casa Capitão e, entre o concerto ter sido anunciado, esgotado e tocado, passaram-se apenas três semanas.
Se a perspetiva de ver as Hinds numa boa sala de espetáculos foi o que nos levou ao Beato na véspera do Dia Internacional das Mulheres (coincidência?), as Lesma foram quem nos fez chegar cedo. Não sabíamos muito sobre a banda de Leonor, Beatriz e Rita para além de que são do Barreiro e de que têm dado que falar. No concerto que deram na primeira parte das Hinds percebemos também que são muito novinhas, mas que a juventude não as impede de fazer excelente rock. O alinhamento foi composto sobretudo por canções do disco É Mentira, lançado em abril de 2025, e ficámos surpreendidos com a versatilidade das três amigas, que tocaram desde canções de amor (“Eu Sou Uma (Colher)”) a temas “bué atuais” (“Heroína”), passando pela já clássica e barulhenta “Barreiro”. Leonor Casimiro não precisou de pedir licença para fazer daquela a sua festa, conquistando a plateia com um à vontade em palco que podia parecer sobranceiro mas que nós achámos profundamente punk — “não se vão embora agora, senão perdem o lugar à frente para verem o que querem ver a seguir”. Nem sempre as bandas de abertura casam bem com o artista principal, mas neste caso foi perfeito.
A plateia ficava com cada vez menos espaço à medida que o entusiasmo coletivo para receber as Hinds aumentava. As espanholas vinham com muita vontade de festejar e de celebrar Viva Hinds, o disco que escreveram num momento em que não tinham editora, manager ou dinheiro, mas que acabaria por se tornar no trabalho que mais alegrias lhes trouxe na carreira, como contaram numa das várias pausas em que, meio em portunhol, meio em inglês, conversaram com a audiência lisboeta. Como seria de esperar, a setlist foi composta sobretudo por músicas novas — e que gozo nos deu ouvir “Boom Boom Back”, “The Bed, The Room, The Rain and You”, “Stranger” ou “Superstar” —, mas também houve espaço para homenagear Leave Me Alone, o primeiro álbum das Hinds, que faz 10 anos este ano. “Bamboo” e “Garden” soaram deliciosamente caóticas, mas foi “San Diego”, já perto do fim do concerto, o momento mais eufórico. “Alguma menina sabe tocar guitarra?” — perguntaram as artistas, não hesitando em convidar para o palco “Cata” (se bem percebemos) para tocar guitarra no lugar de Carlotta.
Sempre bem-dispostas, Ana e Carlotta mantiveram-se conversadoras até ao fim e fizeram rasgados elogios às Lesma, falando de como é bom ver raparigas a ocupar o seu espaço em palco, e também aos rapazes da plateia, que eram “muito divertidos”. Houve ainda tempo para um momento Boa Cama, Boa Mesa / aula de português, em que se discutiram pastéis de nata, bifanas e o que se come ao pequeno-almoço em Paredes de Coura.
Para além das suas próprias canções, as Hinds fizeram ainda duas covers: “Girl, so confusing”, de Charli XCX, numa versão rock, e “Spanish Bombs”, dos Clash — canção apropriadíssima onde o seu sotaque espanhol não destoa minimamente. O concerto terminou em apoteose com “En Forma”, single épico totalmente cantado em espanhol e que teve direito a coreografias e até a Carlotta a tocar guitarra nos ombros de Ana enquanto esta tocava teclado. Embora as Hinds nos tenham dito que aquele era o último concerto do disco de 2024 — e era notória a emoção com que se despediam destas canções —, esperamos que não sejam radicais e que continuem a deixar estas músicas, tão felizes por tantas razões, imiscuir-se nos seus alinhamentos futuros. Foi bonito celebrar com elas. Estão perdoadas pela demora.
Fotografias por Inês Silva



















