Se Chimamanda Ngozi Adichie escreveu “Notas sobre o Luto”, pequeno-grande livro pouco depois da morte do pai, Albarn e Hewlett apresentam aqui uma ultrapassagem da perda de um pai. Resultado: beleza grandiosa.
Uma parte importante da História da Humanidade tem sido passada a lidar com as reações à perda, ao luto, à dor, à injustiça, à falta de explicações racionais para o facto de ficarmos sem aquelas pessoas de quem mais gostamos. Muitas vezes, embora não obrigatoriamente (e aprofundar esta discrepância tem gerado milhões de interpretações clínicas), os familiares mais próximos são o epicentro dessas crises pessoais. A música pode ser uma catarse e, neste caso, é-o para Damon Albarn e Jamie Hewlett, uma vez que cada um deles perdeu o pai em 2024, durante a produção do sucessor de Cracker Island. “O pai de Damon morreu e, dez dias depois, aconteceu o mesmo ao meu pai. E pensámos que os temas do disco estavam a apresentar-se de modo claro para nós”, confessou Hewlett à revista Rolling Stone. As viagens à Índia foram decisivas para que a visão sobre a morte fosse mais positiva e menos solene. Nesse contexto, Albarn espalhou as cinzas do corpo do pai nas águas do Ganges.
Há cerca de um ano, quando aqui escrevi sobre Demon Days, segundo álbum dos Gorillaz, não imaginava que poderia haver uma espécie de ponte entre esse disco memorável de 2005 e The Mountain, o mais recente exemplo da imaginação de Albarn e Hewlett, principais responsáveis criativos da banda. Agora, tal como então, a voz de Dennis Hopper é presença marcante, neste caso logo no tema homónimo de abertura. Uma participação póstuma, tal como, por exemplo, o são as de David Jolicoeur (De La Soul), Tony Allen, Mark E. Smith (The Fall) ou Bobby Womack.
The Mountain, cujas gravações passaram por Londres, Devon, Mumbai, Nova Déli, Rajasthan, Varanasi, Ashgabat, Damasco, Los Angeles, Miami ou Nova Iorque, é uma beleza sonora e um hino ao multiculturalismo nas inúmeras colaborações que englobam gente a cantar em árabe, inglês, hindi, espanhol e iorubá. Escutemos bem as envolvências místicas das misturas de géneros e instrumentais que estão por todo o álbum, com cítaras, sarod e a eletrónica da banda em constante diálogo.
Há Black Thought, dos Roots, em “The Moon Cave”, “The Empty Dream Machine” (onde também se encontra Johnny Marr, que foi dos Smiths, presença ainda em “The Plastic Guru” ou “Casablanca”, aqui também com Paul Simonon, ex-baixista dos Clash) e “The Sad God”, no fim do disco; “The Happy Dictator”, primeiro single do álbum, conta com Sparks e a animação do vídeoclip remete-nos de imediato para “O Grande Ditador”, lendário filme de Charlie Chaplin; “The Hardest Thing”, mais lenta e melancólica, inclui Tony Allen, mas é Albarn quem afirma “The hardest thing is to say goodbye to someone you love”; já “Orange County”, com Bizarrap, Kara Jackson e Anoushka Shankar, parte dessa mesma ideia para amenizar o tema; “The God of Lying” retoma os ambientes lúgubres e Joe Talbot (Idles) recomenda que tudo seja questionado; “The Manifesto” tem o argentino Trueno e Proof a remeterem para as atmosferas de Bad Bunny (que foi um dos convidados no disco anterior); “Delirium” aproxima-se de uma certa religiosidade.
Omar Souleyman e o rapper norte-americano Yasiin Bey tornam “Damascus” uma festa síria dançante; “The Shadowy Light”, em que “the end is the beginning”, é uma jornada para o que se segue depois da vida com a presença de Asha Bhosle, vedeta de Bollywood, mas também Gruff Rhys, Ajay Prasanna e os irmãos Amaan Ali Bangash e Ayaan Ali Bangash, que tocam sarod noutras canções); “The Sweet Prince” traz-nos Albarn junto ao leito de morte do pai, embora numa perspetiva de celebrar a sua vida.
A banda também explicou, em comunicado, que havia um pano de fundo para o novo trabalho. “As circunstâncias agora colocam Murdoc Niccals, Russel Hobbs, 2D e Noodle na Índia, tendo a chegada a Mumbai sido feita com a ajuda de quatro passaportes falsos, fornecidos por um conhecido de negócios de Murdoc em Nova Iorque. A banda voltou costas ao estrelato pop internacional e os nossos heróis estão agora imersos nos ritmos da criação musical mística, enquanto navegam pelo terreno montanhoso disso a que se chama vida.”
Em resumo, o que este nono disco de estúdio de Gorillaz nos afirma, acima de tudo, é que esta incursão em novos cenários e universos sonoros trouxe uma revitalização à banda e que esta está no topo da montanha. Continuar lá será o mais difícil. Mas é, sem dúvida, o desafio ideal para a criatividade de Albarn e Hewlett.