Conheço os Sparks desde a minha adolescência, e sempre vi neles uma banda inteligente, bem humorada, capaz de fazer algo sempre diferente, disco após disco, sem perder, no entanto, a sonoridade e identidade próprias. Gosto deles, mas confesso que aprecio ainda mais a sua fase recente, a que abarcou discos como Lil’ Bethoven (2002), Hello Young Lovers (2006) e Exotic Creatures Of The Deep (2008). Os distantes álbuns clássicos dos anos 70, como Kimono My House ou Propaganda, por exemplo, esses estão já tão distantes no tempo , que parecem perdidos numa qualquer galáxia quase irreconhecível. Quanto aos Franz Ferdinand, o que dizer da banda indie rock que melhor música faz para os amantes de calças apertadinhas e gravatas estreitas? São bons, muito bons até, entusiasmantes, inteligentes nos versos e nas melodias que criam, e bem humorados também. Por isso, a fusão improvável de Sparks e Franz Ferdinand tem tudo para resultar otimamente. E resulta! Foi amor à primeira audição, como há já algum tempo não me acontecia com um disco destas características.
Confesso ter sentido, à partida, alguma apreensão quando fui confrontado com um disco assim, unindo nomes dignos de figurarem numa qualquer generation gap musical list. Foi, confesso também, passageira essa vaga preocupação. FFS é um álbum bem disposto, mesmo quando trata de alguns assuntos mais sérios, como a solidão bem enraizada nos dias modernos, logo na faixa de abertura, a dançável “Johnny Delusional”. Tudo aqui combina na perfeição. Há muito de Sparks, mas o refrão não poderia ser mais Fernandiano. Como na seguinte “Call Girl”, onde a receita se repete. Nos momentos mais melancólicos, tudo decorre imaculadamente. O melhor exemplo do que digo é a belíssima “Little Guy From The Suburbs”, uma das melhores canções do disco. Há aqui algo de literário, coisa que não me deixa indiferente. Os versos são bons, a melodia vai crescendo, libertando-se das suas próprias correntes, algo claustrofóbicas de início. A visão sobre os falsos profetas dos tempos que correm é, neste tema, maravilhosa. O classicismo moderno (os paradoxos, sempre os paradoxos…) das canções dos Franz Ferdinand mostra-se em muitos dos temas (“The Man Without a Tan” é um ótimo exemplo do que afirmo), bem como o synth pop erudito dos Sparks na excêntrica, por vezes operática e bem irónica “Collaborations Don’t Work”. Boas canções não faltam por aqui. Excentricidade q.b. também não. Crítica política, igualmente. Ouça-se “Dictator’s Son”, e imediatamente somos levados a pensar no palerma que governa a norte, o local que é bem mais democrático a sul, do outro lado do mundo.
A produção de John Congleton, que já trabalhou com nomes importantes como David Byrne, St. Vincent ou Anna Calvi, faz aqui um fantástico trabalho. Art pop, new wave, glam rock de pendor mais modernista, tudo bem musculado e grandiloquente, intenso, mas também melancólico e lírico, num ou noutro momento, fazem deste FFS um disco que cabe bem nas noites quentes deste verão. Com um copo de cerveja na mão, este álbum escorre lindamente! E pede mais copos, obviamente. Segundo parece, está prevista uma edição especial e alargada do disco (para além da edição deluxe já editada), o que poderá ter algum interesse adicional, uma vez que depois de ouvido o álbum, fica a vontade de ouvir mais algumas canções da dupla Franz Ferdinand / Sparks. Enquanto isso não acontece, há sempre a boa hipótese do modo repeat, que é o que estou a fazer enquanto alinhavo estas linhas.
Ah, só mais uma coisa: ao vivo, isto deve ser bombástico! É só ter alguma calma e rumar ao Super Bock Super Rock no dia 18 de julho. Estarão no palco principal, por volta das 23.30.
Belo disco!