Depois de mil vezes (foram 7) a actuar em Portugal, Father John Misty voltou ao Campo Pequeno para nos mostrar que continua bem de saúde, que aqueles ossos deliciosos continuam a abanar muito bem e que a sua acidez (tudo mentira) continua equilibrada.
Josh Tillman, mais conhecido por Father John Misty, tem um percurso interessante. Cresceu a querer ser padre (família super religiosa), lançou mil álbuns (hipérbole) como J. Tillman, foi baterista dos Fleet Foxes e finalmente se centrou na persona Father John Misty com o lançamento de Fear Fun, mas sobretudo com o lançamento do espectacular I Love You Honeybear (um texto incrível para um álbum incrível).
FJM continua a ser um indie darling (que já tem pouco de indie), que se agarra à persona de ser pedante e ácido, como confirmou no fim da primeira música (“I Guess Time Just Makes Fool of Us All”): “This is your last chance to dance tonight. Sorry”. Uma mentirinha que não levámos a sério, porque, como se veio a comprovar, o público dançou e cantou ao longo de todo o concerto (take that, Mr Tillman!!).
Com uma super banda em palco (contei pelo menos quatro guitarras, um baixo, um saxofone, uma bateria, um sintetizador), o espectáculo começou sob luzes vermelhas, muito casino-chic e suave, tal imagem que já estamos habituados a ver de FJM. Também como hábito, apresentou-se de fato escuro com camisa branca, com os três primeiros botões abertos (não vou dizer o que pensei), barba e cabelos fartos, de microfone na mão, pronto a conquistar um público que já estava conquistado.
Sempre a balancear pelo palco com a sua habitual languidez, FJM manteve uma persona confiante (“arrogante”). Ainda assim, de vez em quando, deixou cair a máscara por breves segundos e mostrou-nos a pessoa por trás do artista. São esses pequenos momentos que materializam a proximidade que o público exige. Seja quando alguém assobia de forma entusiasmada e este responde com um sorriso maroto e bate palmas, devolvendo o sentimento; seja quando refere “It’s good to be back! Caffeine, coffee and sugar and cigarettes, you guys do it well”.
Esta tour europeia assenta no lançamento do seu mais recente álbum Mahashmashana (2024), mas a setlist é construída de forma equilibrada, passando por êxitos como Chateau Lobby #4 (in C for Two Virgins), Nancy From Now On, God’s Favorite Costumer, I’m Writing a Novel, com espaço para músicas recentes como Screamland e The Old Law.
Se há coisa que podemos apontar é só isto: obviamente quando se tem uma carreira com mais de vinte anos, haverá sempre músicas que serão mais queridas (o single Real Love Baby, uma verdadeira estrela) e que será complicado ter um público constantemente efusivo. Apesar disto, quem estava a assistir nunca parou de dançar, de cantar (às vezes aquele balbuciar baixo de quem não tem muita certeza da letra, mas também canta) e de estar de corpo presente no concerto.
Já no final do concerto, de olhar sério e guitarra na mão, olhou em frente para as bancadas, e disse “this song is for you, lady upstairs, hope to see you soon”, arrancando de seguida com o “I Love You Honeybear”. Berros colectivos fizeram-se ouvir no Campo Pequeno.
O concerto teve encore, FJM cantou um disco pedido (Holy Shit) e terminou com um dos mais recentes singles “Mahashmashana”. Mas o que foi mais bonito, e que nos (re)confirmou que aquele ar meio distante, pedante e ácido é só uma persona, foi quando o concerto terminou. Já com a banda fora do palco, tivemos o Josh Tillman sentado no meio do palco a assinar uns vinis que algum fã lhe pediu. Um charme.
Setlist
I Guess Time Just Makes Fools of Us All
Mr. Tillman
Nancy From Now On
Being You
Goodbye Mr. Blue
When You’re Smiling and Astride Me
Chateau Lobby #4 (in C for Two Virgins)
Mental Health
Josh Tillman and the Accidental Dose
Screamland
God’s Favorite Customer
The Old Law
I’m Writing a Novel
Real Love Baby
I Love You, Honeybear
Encore:
Holy Shit
She Cleans Up
Mahashmashana
Fotografias de António Vouga
















