Em Secret Love, os Dry Cleaning parecem fazer algo paradoxal: consolidam a sua identidade ao mesmo tempo que a colocam discretamente em causa.
Os Dry Cleaning conquistaram-me em 2021, com o seu primeiro álbum, New Long Leg. Depois perderam-me ligeiramente com Stumpwork, e com o concerto que vi no Primavera. Não que a performance tenha sido má, mas senti que a opção spoken word não resulta num festival com sol, exigirá maior intimidade que ali não existia.
Avancemos então até 2026, e para este novo trabalho. À primeira escuta, Secret Love mantém muitos dos traços que tornaram New Long Leg e Stumpwork referências do pós-punk contemporâneo — guitarras angulares, baixo insistente, bateria contida e, sobretudo, a declamação inconfundível de Florence Shaw. No entanto, há aqui uma vontade clara de alargar o espectro emocional e sonoro da banda, mesmo que isso nem sempre resulte de forma linear.
Musicalmente, este álbum é mais solto e, em certos momentos, mais acessível. Faixas como “Hit My Head All Day” ou “Cruise Ship Designer” introduzem grooves mais evidentes e estruturas menos austeras, quase flirtando com refrões — algo impensável nos primeiros registos. Esta abertura pode ser lida como amadurecimento, mas também levanta a questão de saber se parte da estranheza que tornava os Dry Cleaning tão singulares não se dilui ligeiramente.
Mas se há algo que não mudou, é o trabalho da sua vocalista. É nas letras de Florence Shaw que o álbum encontra o seu verdadeiro centro de gravidade, a sua escrita continua a operar num território aparentemente banal — descrições de trabalho, rotinas domésticas, consumo mediático — mas com uma precisão que transforma o quotidiano em comentário social mordaz. Em “Cruise Ship Designer”, a forma como a narradora justifica a sua utilidade profissional expõe, com humor seco, a alienação contemporânea e a necessidade quase patológica de atribuir significado ao vazio. Já em “Blood”, a repetição de imagens corporais ligadas à violência dos media, funciona como um lembrete desconfortável de que a distância emocional é, muitas vezes, uma ilusão.
Ainda assim, Secret Love também revela fissuras interessantes. Em temas mais introspectivos como “Let Me Grow and You’ll See the Fruit”, Shaw abandona parte da ironia para admitir fragilidade, solidão e contradição. É um movimento corajoso, embora por vezes menos incisivo do que o distanciamento clínico que marcava trabalhos anteriores. O fecho com “Joy” tenta formular uma ética de resistência — “não desistir da doçura” — que pode soar quase ingénua, mas talvez seja precisamente essa fricção que torna o disco relevante (e tem um forte piscar de olhos aos IDLES).
No conjunto, Secret Love não é o álbum mais radical dos Dry Cleaning, mas será talvez o mais humano. Nem todas as pessoas têm a capacidade de dizer “I Need You” de uma forma tão directa. A produção de Cate Le Bon (que também produziu um dos bons discos do ano passado, Phonetics On and On, das Horsegirl), ao suavizar algumas arestas, levou a banda a arriscar perder parte do choque inicial; em troca, ganha complexidade emocional e um campo de leitura mais amplo — mesmo que isso implique caminhar perigosamente perto da normalidade.