A Alta de Lisboa é a nova Chelas, o hip-hop tuga borbulhando em cada esquina. O álbum de estreia de Don Fran não nos deixa mentir, a Alta a acontecer. Melodia e good vibes em partes iguais…
Dom Fran cresceu na Quinta Grande, foi realojado na Alta de Lisboa, e cose as suas origens na lapela qual medalha ao peito. No ano passado, concorreu a um concurso de talentos justamente com um rap dedicado a’ “O Bairro que me Gerou”. O retrato vívido e sentido, agigantado pelo instrumental opressivo de MysticalBeat71, valeu-lhe a subida ao pódio. Caída a primeira peça de dominó, o caminho até ao álbum de estreia, ALMA 3048, estava traçado. Saiu o mês passado.
Nele reencontramos “O Bairro que me Gerou”, agora enriquecido com um feat do Maze dos Dealema (props para a velha guarda!). Acontece que o seu registo cru e denso de rap de rua acaba por ser a carta fora do baralho. O tom dominante é outro, um hip-hop leve e brincalhão, que namora com a pop sem pedir desculpas. Acrescentem mais duas colheres de sopa de R&B, uma de afro-groove maroto, cem gramas de trap e uma pitada leve de reggae, e a sobremesa estará pronta a servir.
Como sempre acontece em iguais circunstâncias, as sensibilidades dividem-se, os estetas sisudos franzindo o sobrolho, os “poptimistas” lambuzando-se com o melaço. Sim, advertimos: os refrões dulcíssimos como leite condensado não são aconselháveis a insulinodependentes. O tema que abre o disco, “Bem Disposto (Boa Companhia)”, só não será um hit se o mundo estiver irremediavelmente distraído…
E depois vem a firmeza da voz: expressiva, clara e convincente, sem se esforçar um grama para o ser. Don Fran é assim, um artista nato, naturalmente carismático e autoconfiante, dominante mas gentil. Entre a sua personalidade e a sua voz não há qualquer fractura, e dá gosto saborear esse bem cada vez mais escasso chamado sinceridade.
Sendo alfa mas protector, trouxe alguns “caloiros” para a festa, Míriam Tavares amaciando “Ostentação” com o seu timbre aveludado, Minidjé espalhando swag crioulo em “Brother, Bye Bye”. O seu bestie PRINCE MARK também se juntou à rambóia, “africanando” a africaníssima “Yoana”.
ALMA 3048 é assim, música para “chillar”, carpe diem no mic. A vida, em si, tem tantos escolhos que dispensa mais neura urbano-depressiva. Have big fun, “mazé”, ao som de Don Fran…