O ano é o de 2016. O verão nunca mais acaba: o sol não deixa de surgir, teimoso e obstinado, pela hora de almoço, com uma religiosidade quase diária. É quase novembro e ainda nos cobrimos de vestidos e calções, óculos escuros e chapéus: não tarda, chega o natal, e ainda estamos a sacudir o suor da testa com a palma da mão. A que se deve este estranho fenómeno metereológico, este de um verão sem fim que se recusa a dar lugar à chuva e ao frio?
Acontece que foi o ano escolhido pelos Avalanches, coletivo australiana de renome no circuito da música alternativa mundial, para irromperem novamente pelas nossas vidas adentro com o primeiro álbum em dezasseis anos (!). E as mais de vinte faixas risonhas e bem-dispostas que o compõe e que passaram imediatamente a integrar as bibliotecas musicais de quem anda atento a isto da música são as grandes culpadas do verão não ir embora.
“Colours”, que se distingue de tantas faixas do grupo por se apresentar completamente desprovida de samples, é exatamente o que o nome promete: pouco adianta atirar para o ar uma mão-cheia de adjetivos bonitos que a enclausurem numa categoria que achemos confortável. Como reza o ditado popular, só ouvindo. É tão bela que chega a ser incomodativa, tão estranha que soa a um velho amigo, tão circular que nem conseguimos adivinhar o que se segue a cada segundo que passa. É a “Colours” e os Avalanches que impedem o verão de nos deixar em paz, mas nós perdoamos. Porque a “Colours” oculta o suor, a chatice, os mosquitos, o calor, a sede e os escaldões: mostra-nos o verão que queremos para sempre nos seus três minutos de agosto.