Aquele momento em que alguém tem a ousadia de escrever sobre os Coldplay, num site de melómanos com a mania que percebem muito mais de música do que qualquer outro ser no planeta e tenta fazer disso uma dissertação de mestrado.
Aviso à navegação: escrever sobre este disco dos Coldplay não vai ser só escrever sobre este disco dos Coldplay. Temos aqui perante nós um caso deveras pertinente, que dá azo a um interessante debate, onde razão e emoção se entrelaçam. Sim, declarações ousadas serão feitas. Sim, tiros serão disparados. Veremos no final se chegamos a alguma conclusão. Começando pelo início:
Parachutes: quando acreditámos nos Coldplay
Não, não tem nada a ver com ter sido no momento decisivo que Henri Cartier-Bresson tanto defendia, o momento em que este disco foi lançado era mesmo de escassez. Parachutes, chegou em 2000, num vortex do tempo: o britpop já era memória recente, as grandes bandas de guitarras pareciam em pausa criativa, o nu-metal e o hip-hop dominavam o mainstream e a explosão do indie que dominaria a década ainda não tinha acontecido. Havia, portanto, um enorme vazio, e foi nesse vazio que estas canções frágeis e melancólicas aterraram.
Fazendo uma gracinha com a canção “Sparks”, parecia haver ali uma centelha. Não um fogo de artifício, uma chama pequena de isqueiro, íntima, como as próprias músicas. Canções como “Don’t Panic” ou “Shiver” tinham uma vulnerabilidade que contrastava com o cinismo de muita música da época. “Yellow” explodiu sim, fez uma geração inteira de brits cantarem “Look how they shine for youuuuuuuu”. E a voz de Chris Martin, parecia pertencer a um estudante tímido que cantava do seu quarto e nos compreendia, longe do frontman fluorescente de hoje. O problema (ou a revelação, dependendo da perspectiva) é que com o passar dos anos essa centelha revelou-se fogo fátuo.
Honestidade ou banha da cobra?
Aqui começa a parte interessante do debate: terão os Coldplay sido, desde o início, vendedores de banha da cobra, que enganaram muito bem parvinhos à procura de esperança na melancolia? Ou existia de facto alguma honestidade naquele primeiro disco?
Parachutes tem algo que os discos posteriores raramente voltariam a ter: hesitação, incerteza. Predominam silêncios, arranjos contidos, uma certa modéstia musical. As músicas parecem construídas com cuidado, como quem ainda não sabe exatamente até onde pode ir. Não dava para ouvir “Spies” ou “Trouble” e concluir imediatamente que estava ali uma máquina de indiezinha simpática feita à medida para nos agarrar.
Mas também é verdade que já estavam presentes alguns dos traços que definiriam o resto da carreira da banda: melodias simples, emoções universais, letras suficientemente vagas para caberem em qualquer experiência pessoal. Essa ambiguidade, entre sinceridade e cálculo, talvez tenha sido sempre o verdadeiro motor do grupo. Talvez o plano estivesse lá desde o início.
O passo seguinte: quando o pequeno se torna épico
Dois anos depois surgiu A Rush of Blood to the Head, e com ele veio a confirmação de que os Coldplay não eram apenas uma banda sensível de voz e violão. Se Parachutes era minimalista, o segundo disco já apontava para a grandiosidade. Canções como “Clocks”, “The Scientist” ou “In My Place” ampliaram tudo: produção maior, emoções maiores, ambição maior. O grupo deixava de soar como herdeiro tímido de um Jeff Buckley ou Radiohead e começava a moldar o seu próprio modelo de rock de estádio sentimental, isto vi eu com estes olhos que a terra há-de comer no Pavilhão Atlântico a 9 de Abril de 2003. O disco aparentava ter músculo e elegância e, durante algum tempo pareceu funcionar, parecia uma evolução natural. Mas olhando em retrospectiva, talvez também tenha sido o ponto em que o caminho ficou perversamente definido: a estrada conduzia inevitavelmente ao espectáculo global.
O fenómeno Coldplay (versão século XXI)
Duas décadas depois, os Coldplay tornaram-se uma entidade completamente diferente. Discos como Music of the Spheres ou colaborações com artistas pop globais transformaram o grupo numa espécie de plataforma de entretenimento planetário. Uma grande e valente poia, com colarzinhos fluorescentes, enquanto alivia a carteira dos incautos. Concertos gigantescos, pulseiras luminosas, estética colorida, mensagens universais de unidade vazias e cheia de lugares-comum.
O que resta hoje de Parachutes
Ouvir Parachutes hoje é uma experiência curiosa. Como poderão imaginar, fi-lo para estar aqui a escrever e o cérebro está em constante tilt, entre um será que isto tem ponta por onde se lhe pegue ou estamos só a ouvir a nossa própria memória? Há certamente nostalgia, sei de cor praticamente todas as canções, que carregam o peso de uma época específica. Mas será que ficaram por serem boas ou simplesmente muito básicas e fáceis de agradar ao ouvido? Devo sentir-me enganado, ou simplesmente apreciar a coisa pelo que é? E será que os Coldplay poderiam ter escolhido um rumo mais interessante para a sua carreira? I guess we’ll never know. Mas depois destes dias a ouvi-los, garanto-vos que tão cedo não volto, para trip down memory lane arranja-se bem melhor por aí.