Ao segundo disco, o supergrupo mantém a matriz do álbum anterior, mas sublima e aperfeiçoa.
É lamentável, miserável mesmo, chegarmos a 2026 e as coisas estarem num tal retrocesso civilizacional que há matéria de sobra para se fazer canções desta índole. Porém, já que aqui chegámos, é um bálsamo haver bandas como os Cara de Espelho.
Quando, há dois anos, lançaram o primeiro disco, disseram logo ao que vinham: uma formação composta por alguns dos principais criadores de música portuguesa das últimas décadas, preparada para fazer da canção uma arma bem polida pronta a disparar, às vezes com balas de borracha outras vezes mais letal, humor e sátira corrosiva.
Esta matriz lírica e musical já estava bem definida no álbum de estreia mas, neste segundo volume, é elevada ao quadrado. O disco anterior nasceu em pandemia, troca de ideias por email confinado, mas este surge depois de terem percorrido o país em digressão, onde puderam afinar dinâmicas e cumplicidades, transformando num todo unificado o que outrora era uma soma de partes.
Em termos instrumentais, estes cinco intérpretes dotados fazem parecer simples as canções densas, cheias de camadas, em ritmos vários que vão percorrendo caminhos por vezes dispersos, serpenteando numa harmoniosa e labiríntica dança. Ora mais encorpadas, ora mais delicadas, são todas canções ricas em texturas e com melodias mais cativantes do que no disco de há dois anos, movendo-se nos mesmos terrenos: pop e rock de inspiração tradicional, uma moda aqui, um calipso ali, baixos fortes, por vezes umas guitarras mais distorcidas quase fuzz. E sempre flautas e outros instrumentos da família – alguns deles construídos pelo próprio Carlos Guerreiro (dos Gaiteiros de Lisboa) – que dão à música uma estranhamente funcional capacidade de fundir o tempo. Soa a novo e ancestral, dos celtas e iberos aos nómadas digitais.
Depois, a lírica. Os poemas são todos, novamente, da autoria de Pedro da Silva Martins, que agora aperfeiçoou a habilidade de escrever para magnífica voz de Maria Antónia Mendes. Mitó, que já ouvimos há muitos anos n’A Naifa e Señoritas, tem uma voz que é um portento de beleza inigualável, que carrega uma força soberba. Não é só o tom e o timbre, é a versatilidade, a forma como pronuncia cada palavra, como confere a ligeireza humorística ou intensidade dramática, conforme a canção o exija.
Esta componente vocal é de maior relevância neste caso, porque estas músicas vivem bastante do que é dito, mas também de como é dito. Por isso a produção coloca a voz ligeiramente à frente dos instrumentos, para que saia clara, limpa, directa, sem espaço para mal entendidos: não há uma única sílaba imperceptível. E tem de ser assim, ou não estivéssemos a falar de música de intervenção. Como nos disse em entrevista há dois anos, Pedro da Silva Martins escreve canções de liberdade, atento à sociedade que nos rodeia. E, aliás, aquilo que nos preocupava em 2024, hoje preocupa ainda mais.
Então, ao longo destas 10 canções, fala-se sobre política populista, masculinidade tóxica, gentrificação e vendilhagem, teorias da conspiração, seitas e cultos, dogmas, ecologia, algoritmos, enfim, a miríade de ameaças à democracia.
Estes assuntos são tratados com a ironia e graça necessárias para desconstruir mitos e ideias falsificadas, põe o dedo na ferida mas deixa que sejamos nós, ouvintes, a escarafunchar. É directo o suficiente mas deixa espaço à interpretação, fala sobre hoje mas daqui a 50 anos será facilmente compreendido.
Em tempos macabros, em que o ridículo ultrapassa o razoável, em que quem mais ordena é quem grunhe mais, é da mais fundamental importância haver quem eleve a sua voz e grite coisas tão básicas, mas que hoje quase parecem excêntricas: bom senso e humanismo.