É um abrir de boca, de dentes, de garganta, de pulmões, de coração, um murro no peito, no estômago, uma vontade de dançar como se ninguém estivesse a ver, de cantar como ninguém estivesse a ouvir, de viver e de sentir tudo com uma força furiosa de quem sabe que só tem hoje. É a melodia que se repete, que cai sobre si mesma apenas para se reerguer com a mesma força, os coros imponentes que nos levam numa onda de antecipação para a explosão que já bate à porta, vai já, vai já, a melodia que fecha o disco colorido de serpentinas que tremelicam na capa, como nos já andamos todos aos tremeliques, vá lá, vá lá, chega, chega, e enfim, chega o embate final, que nos estala nas costelas como uma onda cheia de força, que nos transporta para uma sala escura cheia de pessoas que ardem em luz, que nos faz semicerrar os olhos para nos distinguirmos entre a chuva de confettis que chove do teto aberto, que nos enche de um calor cá dentro, um calor bom, um calor que nos lembra as tardes de verão que pareciam nunca mais ir embora, uma infância frenética e saudável que foi embora sem se despedir um dia – e, durante alguns minutos, conseguimos recuperá-la, estamos de novo descalços a correr por toda a parte com os nossos primos e irmãos, a berrar que somos índios e cobóis, entregues à maravilha de viver e de existir num mundo sem faturas, recibos, ordenados, frequências, currículos, seca.
Canção do dia: Brother Sport – Animal Collective