Primeiro álbum de inéditos dos Broken Social Scene em nove anos, Remember the Humans é uma tentativa de reencontro com a essência do coletivo canadiano, sem a tentação de repetir fórmulas.
Serei eu um grande fã dos Broken Social Scene? Ora façamos de polígrafo e vejamos os dados:
Número de discos da banda revistos no Altamont: 4 (com este 5)
Número de discos da banda revistos no Altamont, escritos por mim: 4 (com este 5)
Número de participações da banda no Rádio Clube Altamont: 1 (escolha minha, incluído num excelente menu)
Número de reportagens de concertos da banda no Altamont: 1 (escrita por mim, a única vez que os vi ao vivo, no longíquo ano de 2010 🥺)
Número de documentários sobre a banda alvo de análise no Altamont: 1 (escrito por mim, sobre um rock show romance de seu nome This Movie is Broken)
Número de canções do dia Altamont da banda: 1 (escolhida por, bem, por esta altura já chegam lá sozinhos)
Posso orgulhar-me de, muito provavelmente, ter sido a única pessoa que terá afirmado, em público, que os Broken Social Scene são uma das grandes bandas deste século. Reitero.
Posto isto, Recordemos os Humanos. Primeiro álbum de inéditos dos Broken Social Scene em nove anos (o último tinha sido Hug of Thunder) Remember the Humans é uma tentativa de reencontro com a essência do coletivo canadiano, sem a tentação de repetir fórmulas. Depois de algum tempo dedicados à promoção dos 20 anos de You Forgot It in People, sente-se o peso do tempo que passou, havendo uma clara substituição da euforia juvenil por uma consciência mais aguda da fragilidade humana.
Logo na abertura, “Not Around Anymore”, Kevin Drew canta sobre ausência e perda, num mundo onde “it’s all gone away”. Mas a música recusa o derrotismo: as guitarras, os sopros e as vozes entrelaçadas transformam o lamento numa celebração da comunidade, reafirmando a velha máxima da banda de que ninguém canta verdadeiramente sozinho.
Ao longo do álbum, canções como “Only the Good I Keep” e “Relief” exploram a memória, o consolo e a capacidade da música para preservar aquilo que merece permanecer. Em “Relief”, o verso “To finally feel / To finally be” resume um disco que procura recuperar a empatia numa época cada vez mais automatizada e distante. Já “What Happens Now”, com o regresso de Feist, estabelece uma das pontes mais emocionantes com o passado, refletindo sobre tudo o que foi perdido e, sobretudo, sobre o que ainda vale a pena salvar.
É impossível ouvir Remember the Humans sem pensar em You Forgot It in People ou no grande álbum da banda, Broken Social Scene, de 2005. A produção de David Newfeld recupera a exuberância orquestral desses clássicos, mas troca parte da urgência por contemplação. As explosões catárticas que me conquistaram na banda praticamente não existem, mas se há uma coisa que o álbum me fez foi voltar a ouvi-los, e ainda sentir a vibração de canções como “Almost Crimes” ou “Superconnected”.
Entretanto está nos ares da net um novo objecto sobre a banda, desta vez um documentário propriamente dito, It’s All Gonna Break. Nele, o realizador Stephen Chung, que acompanha os primeiros anos da banda, mostra um colectivo movido por amizade, improvisação e vulnerabilidade; o novo disco funciona quase como o seu epílogo natural. Se o documentário celebra a juventude de um grupo que acreditava que tudo podia acontecer, Remember the Humans lembra-nos que, apesar das perdas e das mudanças, continua a haver uma razão para acreditar nas pessoas, e na extraordinária beleza que nasce quando elas criam juntas. Viva Kevin Drew, viva Brendan Canning, voltem a Portugal!