Broken Social Scene é o som da tentativa, da convivência, do erro transformado em arte. É barulho que se transforma em respiração. Mesmo vinte anos depois, ainda diz: sim, a confusão pode ser uma casa.
Um dos discos da minha vida, Broken Social Scene não traz grandes refrões ou mensagens maiores que a vida escondidas, mas é feito de um conjunto de vivências entrelaçadas: pessoas com os seus instrumentos, vozes, guitarras, metais, barulhos vários, todos num estúdio a conviver, numa espécie de desordem íntima (ponham os olhos neste brilhante conceito) que conquista o ouvinte que se permite acreditar.
As memórias têm sempre lacunas, mas sou romântico e permito-me acreditar que me lembro da primeira vez que o ouvi. Ou melhor, da primeira vez que o tentei ouvir. A meio da segunda faixa (“Ibi Dreams of Pavement (A Better Day)”) já tinha a sensação de estar perdido, a tentar seguir demasiadas conversas ao mesmo tempo. Há discos assim: não te deixam entrar logo, desafiam-te desde o início só para ver se foges, ou ficas. Eu fiquei. “Our Faces Split the Coast in Half”, faixa de abertura, foi o primeiro empurrão – uma energia desorganizada, o trompete que atravessa tudo como se tivesse algo urgente a dizer. Depois o êxtase de “7/4 (Shoreline)”, uma das grandes canções da década, se me permitem, agarrou-me com o seu balanço estranho, um tempo fora do comum, meio jazz, meio indie, épica. A partir daqui, já não havia como escapar.
O colectivo canadiano, liderado por Kevin Drew e Brendan Canning, sempre teve a mania (saudável) de não caber dentro de uma canção. Já o tinham feito a espaços no álbum anterior (You Forgot it in People) e aqui levaram isso a um novo limite. Broken Social Scene é um puzzle montado por muitas mãos diferentes e, ainda assim, quando olhamos de longe, tudo faz sentido. Há algo de libertador nisso – a imperfeição como identidade, a sensação de que não há um centro único, de que todos têm direito à sua nota, ao seu erro, à sua contribuição para a cacofonia geral.
O desfile de grandes canções prossegue com “Major Label Debut”, “Fire Eye’d Boy”, “Hotel”, “Superconnected”, todas elas com um toque brokensocialiano distinto e intenso. Tê-los visto em 2010, num concerto na Aula Magna, foi um momento que carregarei comigo para sempre. No final do álbum há “It’s All Gonna Break”, conclusão monumental, dez minutos de apoteose descontrolada. A música sobe, expande, cai, volta a subir, parte-se aos bocados e quando termina deixa-nos atordoados, mas gratos.
Cá em casa está na prateleira “Discos que te enchem, mesmo sem saber exactamente de quê”. Talvez seja isso que mais me fascina aqui: o som da vulnerabilidade colectiva. Nenhum instrumento tenta ser protagonista, nenhuma voz impõe ordem, todos coexistem, como se a banda fosse uma metáfora para a própria vida adulta, caótica, imperfeita, mas cheia de beleza nos intervalos.