Vivemos, por momentos, num mundo menos ordinário, e estivemos perto de concretizar o sonho da eterna juventude.
Todos os que foram adolescentes na década de oitenta já viveram o suficiente para serem protagonistas de um qualquer filme em que o regresso ao passado se projetou no interior das suas próprias cabeças. E assim, o que vivemos e o que sentimos torna-se tão presente, que é estranho imaginar como, num ápice de tempo, tudo se perdeu, desgastou, perdeu-se no vapor dos dias. No que à música diz respeito, o que ontem amámos, pode agora ser uma pálida sombra da imensa luz que existiu em nós. Recordar esses longos instantes (foram anos a fio, até o novelo do tempo os desgastar) foi, ao mesmo tempo, um prazer e um sofrimento. Aquele que nunca sentiu isso, que leve com a pedra em ricochete, ao tentar atirá-la. E como a pedra é metafórica, alegremo-nos, que ninguém se aleijou ou se feriu. Mesmo assim, há que ser duro, durão, duran duran…
A memória é uma substância estranha que se agiganta, através dos acordes de um sintetizador. Há qualquer coisa de profundamente comovente na forma como a memória nos assalta e nos desarma, quando as luzes de uma grande sala se apagam e o passado faz-se carne, som e artifício. O regresso dos Duran Duran a Lisboa, no Meo Arena, foi um resgate emocional, uma paragem no relógio biológico de quem transporta os anos oitenta tatuados na pele.
Para quem viveu a alvorada dessa década, sobretudo os adolescentes, como já referimos, a música era uma religião de muitas faces, de muitos desafios, com um forte apelo visual. O movimento new romantic não foi apenas uma nota de rodapé na história da pop, antes um refúgio estético, onde a melancolia e o glamour dançavam de mãos dadas. Havia um fascínio quase febril, uma devoção absoluta por aquela gente, aqueles artistas, aquelas bandas que pareciam ter chegado de outro planeta, para nos salvar do cinzentismo quotidiano. Se pensarmos melhor, agora que a idade limpou, eliminou e apurou o entendimento do passado, nos Duran Duran havia Ziggy Stardust de lantejoulas e cabelos em franja a roçar a perfeição do estilo. E havia glam-rock com outras poses e outros trejeitos. Era uma juventude que se maquilhava para esconder as dores do mundo, que encontrava refúgio numa aristocracia sonora moderna e elegante, mas que em si mesma trazia já contornos estéticos de decadência abrupta, a um passo de acontecer. Vestir a pop era, de certa forma, uma urgência poética, um grito de identidade num mundo que insistia em apresentar-se a preto e branco. E o eco dessa paixão adolescente, outrora colada em cartazes nas paredes do quarto, voltou a vibrar no ar no MEO Arena.
Simon Le Bon, Nick Rhodes e companhia entraram em palco sem pedir licença à nostalgia. Abriram as comportas do tempo e deixaram que a vertigem nos levasse. As urgências rítmicas de “The Wild Boys” e a cadência felina de “Hungry Like the Wolf” ecoaram não como meros fantasmas de outros tempos, mas como hinos vivos, dotados de uma pulsação eletrónica que continua a desafiar as rugas da idade. Esses fantasmas bons (uma espécie de Gasparzinhos do nosso contentamento) estiveram soltos, abraçaram-se a nós e voaram, felizes e contentes, durante aquelas quase duas horas de festa.
O concerto enraizou-se nessa teia fina que existe entre o vigor e a delicadeza. A voz de Le Bon, moldada pelos anos, carrega agora uma suave gravidade, uma dignidade de quem sabe que o segredo da juventude eterna reside na crença mística da pop, no formato canção, mais do que em qualquer outra coisa. Quando irrompeu o baixo elástico de “Notorious” ou o embalo magnético de “Save a Prayer”, o recinto ganhou contornos místicos, convertendo-se num confessionário coletivo. Olhava-se para o lado e viam-se os mesmos miúdos de há quarenta anos, agora com os cabelos esbranquiçados, outros sem cabelos, mas com o mesmíssimo brilho nos olhos, a trautear cada sílaba, a resgatar a inocência perdida no trânsito das décadas. Canções como “Come Undone”, “Planet Earth”, “A View To a Kill” ou “The Reflex” souberam a pouco, para o tanto que representaram. Meia dúzia de temas não abarcam a vida que nelas vivemos… Houve ainda espaço para a contemporaneidade com a nova “Free to Love”, por exemplo, mas foi nos clássicos como “Ordinary World” que o coração bateu de outro modo, naquele lugar onde a beleza e a perda se cruzaram numa melodia (im)perfeita. Como ficou bem a improvável mistura das eternas “Girls on Film” e “Psycho Killer”, meu Deus!!! Quem diria que dois temas tão distintos ficariam tão gémeos um do outro!
Terminado o espetáculo com a apoteose inevitável de “Rio”, ficou o zumbido nos ouvidos e a certeza de uma noite doce. A pop dos Duran Duran continua a ser um espelho onde gostamos de nos ver: elegantes, românticos, eternamente miúdos. O concerto acabou, as luzes acenderam-se, mas a pop, quando é maior do que a própria vida, nunca nos deixa regressar a casa inteiramente sós. E lá, no recanto do lar que é o nosso, entre as paredes que abrigam quem somos agora, voltar a olhar para o espelho revelou um corpo já não tão elegante, claramente menos romântico e bastante amadurecido. Aprender essa lição é um ganho que transporta consigo a perda de alguma inocência que ainda vai restando em nós: o que a música dá, o tempo pode tirar.
Fotografias Samuel Martins e Hugo Moreira, gentilmente cedidas pela organização.





