Os Sigur Rós têm o condão de nos fazer viajar. Desta vez, com orquestra, a viagem ganhou contornos difíceis de explicar.
Nem por acaso, há uns dias, calhou de comentar com colega altamontiano Carlos Lopes uns bonitos versos de Marisa Monte, na sua canção “Quatro Paredes”:
Procuro explicar o meu sentimento
E só consigo encontrar
Palavras que não existem no dicionário
Não sei se a deusa Marisa a vai cantar hoje à noite, aquando do seu concerto no MEO Arena, mas a sua canção ecoou na minha cabeça ontem, no final deste concerto dos Sigur Rós, com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa e o Coro Ricercare a acompanhá-los. Como vou conseguir explicar, neste texto, o que foi aquilo? Terei de inventar palavras, ou quiçá uma nova língua, como fez a esta banda? Fiz uns poucos vídeos com o telemóvel para partilhar, mas vídeos na internet de concertos deles há muitos. Dão uma ideia do que foi, mas todos sabemos que não é a mesma experiência. E é por isso que continuamos a levantar-nos do conforto do sofá, sair de casa num dia de semana, para nos metermos em salas com um conjunto de estranhos e ouvirmos uns tipos em cima de um palco.
Esta Orchestral Tour dos Sigur Rós teve o seu arranque há mais de 3 anos, no dia 16 de Junho de 2023, para ser mais preciso. Deu várias voltas ao mundo, em 94 concertos antes de aterrar em Lisboa, no Campo Pequeno, e terminará dentro de 3 dias em Berlim. O conceito nasceu da conjugação de três cabeças, Kjartan Sveinsson, membro fundador dos Sigur Rós mas que esteve num hiato entre 2013 e 2022; María Sigfúsdóttir, membro da banda Amiina que sempre acompanhou os Sigur Rós e Robert Ames, maestro e co-fundador da London Contemporary Orchestra. A ideia era mostrar o álbum mais recente ÁTTA, que tem uma vasta base orquestral, mas integrado-o com o resto da discografia da banda. Isto, sem cair no fácil banda+orquestra, que prolifera por aí e nem sempre (ou quase nunca) é bem conseguido.
Assistir a um concerto com orquestra e músicas grandes leva-nos sempre numa espécie de viagem interna, onde pensamentos facilmente aparecem e desaparecem, sem nos apercebermos a razão dos mesmos. Neste contexto, permitam-me fazer um paralelismo com uma viagem pela Islândia e a sua beleza natural.
Arrancámos com duas músicas que conheço mal, “Blóðberg” e “Ekki múkk”, que serviram como um aterrar no aeroporto de Reykjavík, um ambientar ao que lá vem, ainda com pés bem assentes no chão. Passar no rent-a-car, levantar o carro que tínhamos reservado, e começar a roadtrip propriamente dita com “Fljótavík”. Saindo da capital, é muito rápido deixarmos de ver prédios, e ficarmos rodeados de vales entre montanhas, onde em tempos “viveram” glaciares. A Ring Road, que permite dar a volta à ilha, permite-nos acelerar ao som da primeira música de todas, “Von” e também de “Andvari”, enquanto há praias de areia preta de um lado e glaciares com branco a perder de vista no outro. “Staralfur”, sublime, permite-nos parar um pouco e respirar ar puro, enquanto vemos um campo com cavalos selvagens mesmo à beira da estrada.
Após essa pausa voltamos à estrada com duas incríveis “Untitled” do magnífico (), para mais à frente e ainda do mesmo álbum fazermos um pit stop em Álafoss, uma das maiores cascatas do país. E depois, bem, depois, entramos num nevoeiro cerrado, onde as nuvens nos invadem todos os poros do corpo. Não há mesmo palavras no dicionário para vos descrever a sequência “Sé lest”, “Ára bátur” e “Hoppípolla”, peço desculpa, não tenho estudos para tal. Se quiserem ter uma pequena ideia, assistam a este vídeo, filmado aquando da celebração dos 100 anos de David Attenborough na Terra.
No guia da tour, que adquiri à saída, está um pequeno texto escrito por Ronen Givony, um colaborador de longa data da banda, do qual passo a transcrever:
“I’ve seen kids who wait for hours in the rain and outside the stage door.
I’ve been in rooms where 10,000 listeners communed in reverential silence.
I’ve seen grown men reduced to tears by the opening of “Hoppípolla”. I’ve shed a few myself.”
Eu, grown men me confesso.
Set 1:
Blóðberg
Ekki múkk
Fljótavík
8
Von
Andvari
Starálfur
Dauðalogn
Varðeldur
Set 2:
Untitled #1 – Vaka
Untitled #3 – Samskeyti
Ylur
Skel
Untitled #5 – Álafoss
Sé lest
Ára bátur
Hoppípolla
Avalon
Fotografias de Tiago Cortez, gentilmente cedidas pela organização











