Mais uma sessão de experimentação e descoberta, onde se fundem portas e mundos, no primeiro encontro do 5º ciclo dos Musicálogos, da Capote Música, em Évora.
Não irei conseguir que qualquer observação neste pequeno texto seja imparcial. Não só sou amigo de algumas das pessoas de quem irei escrever (duas, na verdade) como cresci na cidade que serve de pano de fundo para mais uma edição do Musicálogos – uma espécie de encontro musical às cegas entre dois artistas que se conhecem algures nas arcadas da Praça do Giraldo, num dia de sol tórrido onde a última coisa que precisam é de um capote para fazê-los suar ainda mais.
Parte desta descrição é mentira, mas a verdade é que há mesmo um capote envolvido não fosse a Capote Música o cérebro por detrás desta experiência que já respira desde 2021. Se tiverem espaço e se se quiserem levantar para dar uma valente salva de palmas a quem tem todo o trabalho de uma vida a organizar isto… bem, agora seria uma excelente oportunidade. Não que não o possam fazer mais à frente no texto, mas seria um pouco estranho estarem a ler algo e, de repente, levantarem-se a meio para um aplauso descontextualizado. No entanto, se estiverem no conforto do vosso lar, façam como muito bem entenderem.
O Salão Nobre do Teatro Garcia de Resende abre então mais uma vez as suas portas a todos os curiosos que queiram trocar uma módica quantia de cobres por um bilhete e se queiram juntar para averiguar o resultado de uma nova residência artística inesperada e excitante. Por outras palavras menos nobres (estas últimas foram só para impressionar a talha do salão), temos malta que se junta num evento fixe num sábado à noite, em Évora – uma cidade onde nem sempre existem eventos culturais da mesma leva. Por isso, o melhor é mesmo ir e ver que raio de açorda musical será servida.
Desta vez, em duas tigelas diferentes, temos Alex D’Alva Teixeira, humano desde 1990 com raízes espalhadas entre África, Brasil e a Moita e que, numa memória pessoal, fez questão de rebentar sonicamente com a Sala 2 do São Jorge quando o vi, no contexto do duo Algumacena, no Super Bock em Stock (que descanse em paz) de 2022. Numa outra marmita, temos Joana Ricardo, com uma voz que se ouve bem lá do fundo do Hot Clube Portugal, passando pela música tradicional através dos Zanguizarra e com uma perninha no projeto Raia do eborense Tó Zé Bexiga (ainda hoje, um dos meus nomes preferidos de sempre).
No meio de ambos, a molhar as barbas no caldo, temos Tiago “Acid Acid” Castro. Não é o seu nome de lutador profissional, embora esteja totalmente à disposição, mas sim uma junção de duas personalidades distintas. A primeira, Tiago Castro, radialista desde 2005, dobrador, voz do MOTELx e pessoa que irá receber notificação de que acabei de ver o seu perfil de LinkedIn. A segunda, Acid Acid, pessoa que consome muitos ácidos. Estou a brincar. Trata-se sim do seu alter ego que passeia livremente por campos sónicos e psicadélicos, sempre acompanhado de uma Jazzmaster, cujo álbum mais recente, na novíssima Ovo Estrelado Records, está para breve.
Ninguém diria que Tiago Castro tem esta experiência toda, pois retrai-se de forma exemplar no seu papel de moderador, curioso com perguntas para as quais já sabe a resposta mas sábio ao perceber que o mesmo pode não acontecer com muitos na plateia. Deixa não só este espaço para o público, mas também para os artistas. Tem um papel verdadeiramente integral na condução do experimento entre Alex e Joana. E, mais importante que tudo, sabe que o palco, desta vez, é deles.
Com essa passadeira vermelha esticada, tanto Alex como Joana vão saindo da sua zona de conforto nas suas zonas individuais. Alex troca o seu equilíbrio numa sonoridade mais pesada e retraída aos instrumentos a que estamos habituados por uma corda bamba entre o autotune e outros engenhos no mundo da eletrónica e Joana Ricardo incorpora na sua voz assombrosa um elemento percussionista (numa fase embrionária) que embrulha tudo o que estamos a ouvir num presente bastante apetecível.
Ou seja, não só estão a explorar e a arriscar em conjunto como somam a isso uma exploração individual, a acontecer em tempo real, na sala mais supimpa de Évora. Um encontro menos propício na tentativa de opinar se uma certa música funciona a um nível individual, mas mais indicado em percebermos o que é que conseguimos sentir e ouvir no meio caminho onde estas duas sonoridades se encontram. Especialmente, quanto temos em conta que são novas tanto para o público como para os próprios artistas.
Agora deve ser a parte em que levo com uma tarte na cara por tirar algo da experiência que está para lá de óbvio. Mas, sendo o meu primeiro Musicálogos, encontro grande parte do encanto em descobrir não só um diálogo entre artistas, mas entre o público também. Enquanto olho pagante, estou a explorar o que sai das colunas ao mesmo tempo que quem está em cima do palco – o que é, na verdade, uma experiência verdadeiramente intíma. Uma experiência que faz do Musicálogos não um concerto nem um ajuntamento qualquer, mas uma conversa a várias bocas – entre os artistas, o moderador e o público.
E se estivermos bem sintonizados, aposto que até nos conseguimos ouvir a nós próprios.
Fotografias gentilmente cedidas pela organização, de André Cruz


























