QUER QUER QUER, o álbum de estreia d’A Sul, nasce do luto, mas também da necessidade de continuar e das formas que essa necessidade toma quando a contemplação do vazio se revela insuficiente.
Precedido do EP Já Agora (2022), o álbum de estreia d’A Sul, QUER QUER QUER, saiu no final de Fevereiro, editado pela Cuca Monga, depois de terem sido lançados, nos últimos dois anos, os singles “Gin”, “Tela” e “Metáforas”. Agora, podemos finalmente aceder ao universo completo destas músicas, que nos têm vindo a aguçar a curiosidade.
Primeiramente, importa sublinhar que a escuta atenta deste disco faz muito mais sentido quando percebemos que Cláudia Sul, simultaneamente sua autora e produtora, é sonoplasta de profissão — porque mais do que um conjunto de canções, QUER QUER QUER é um exercício estético sobre as possibilidades plásticas do som. Cada uma das suas doze faixas é um texto diferente, composto de instrumentos diferentes: instrumentos musicais (muitos, variados), objectos comuns, os sons que se ouvem nas ruas, sintetizadores, a natureza, pessoas.
Depois, neste disco, A Sul vai dialogando com as suas dores e faz disso uma festa, numa tentativa de transformar a tristeza e a desilusão que, às vezes, nos assolam (porque é assim a vida, não há como escapar), numa experiência mais significativa e leve. Mas porque o cenário não está favorável para quem faz arte a partir do quotidiano, o que nos chega é mais uma festa sombria, já no fim, um baile triste de serpentinas pisadas e balões esvaziados. Isto porque encontramos no disco um contraste entre a desolação das letras e a festa que a disfarça, feita de arranjos divertidos, como se de um sorriso forçado se tratasse.
Por outro lado, enquanto espaço íntimo da artista, QUER QUER QUER é muito rico em texturas, tendo simultaneamente toques de jazz, bossa nova, bedroom pop, samba e um quê de bailarico pimba. Contudo, parece faltar alguma coesão nessa panóplia de sonoridades, ou, pelo menos, uma orientação estética mais clara, sendo o único fio condutor a sua voz doce.
Ainda assim, entre lenga-lengas que ficam no ouvido e cordas bonitas, o disco acaba por ficar mais calmo no fim, quase como que numa aceitação de que temos controlo sobre muito pouco e que podemos apenas tentar fazer disso arte. “Vinho de Caixa” e “Gin”, as últimas músicas do álbum, são as mais bonitas, talvez por deixarem para trás uma certa revolta em relação à dor e por deixarem que a consolação ocupe o seu espaço. Dizer que “Não devia fazer parte / Ficar sem o meu amor” é uma forma de aceitar que faz parte, por muito que custe e que a dor seja injusta. Por fim, o disco acaba quentinho.
QUER QUER QUER é produto do luto e da sensação de desequilíbrio, mas também da necessidade de continuar e das formas que essa necessidade toma quando a contemplação do vazio se revela insuficiente.