Admiramos Margarida Campelo há muitos anos. Seja como parte de bandas – dos Julie & The Carjackers aos Cassete Pirata, com Afonso Cabral ou Bruno Pernadas – seja como artista em nome próprio. Deliciámo-nos com o disco de estreia, vimos ao vivo, e ainda estamos a degustar o novo álbum, mas ainda não a tínhamos conseguido apanhar para uma entrevista. Aconteceu finalmente, à boleia do mais recente Música de Elevador, álbum que a consagra como uma das vozes mais seguras da música portuguesa do nosso tempo.
Margarida, tu andas nisto da música há muito tempo, mas só recentemente é que avançaste para a frente do palco. Quando é que decidiste que era hora de te assumires como front-woman?
Foi um processo longo, de facto eu não consigo dizer se foi não demorado, porque foi quando foi. Ou seja, há algumas coisas que eu sinto que atrasaram, mas eu acho que nada disto podia ser forçado. Há vários fatores aqui, sendo o mais importante o facto de eu precisar mesmo de me descobrir. Nunca tive como meta ser líder de um projeto ou ser famosa. Queria muito fazer música, queria muito fazer disso a minha vida mas a meta não era necessariamente esta. E nesse aspecto fui aprendendo e fui aceitando as coisas que me iam aparecendo à frente, tive a sorte de essas coisas serem coisas que me fizeram crescer imenso, quer como música quer como pessoa, com pessoas que eu adoro – quase desde o início que só trabalho com amigos e cada vez mais, em todas as bandas das quais eu fui fazendo parte, são bandas que são quase só com os meus melhores amigos, portanto foi uma grande felicidade – e foi uma coisa muito fácil de deixar arrastar. Ao longo desses anos, em que eu fui sendo side musician nessas bandas todas, fui ganhando a minha confiança e fui ganhando também a minha vontade de querer estar à frente de um projeto. Porque de facto há lados que nós temos que não podemos pôr inteiramente num projeto de outros, não é? Então eu fui percebendo que havia coisas únicas, só minhas, que se calhar eu tinha que pôr num projeto só meu. E depois, claro, veio a pandemia, veio o tempo livre, ganhei um ou dois subsídios para fazer o disco, e prazos para cumprir ajuda sempre. Essa foi a motivação, ou seja, o caminho que levou até aí foi este, mas depois a motivação e a urgência foi, de facto, tempo livre na pandemia e prazos para cumprir.
E quando quando decidiste avançar em nome próprio, já sabias para onde querias ir e o que é querias fazer?
Ideias de coisas que eu queria fazer, fui tendo ao longo desses anos em que estive com outras bandas mas eram sempre ideias que soavam a qualquer coisa. Ou seja, tive várias ideias ao longo dos anos, desde para aí 2012/13 que eu vou escrevendo música. Não é uma coisa que eu faça assim em muita quantidade, nem com muita urgência, ou seja, eu consigo não escrever música. E ao longo desses anos, se calhar quando eu comecei a escrever música soava um bocadinho mais àquilo que eu estava a estudar, estava num curso de jazz e era uma coisa um bocadinho mais ajazzada, depois começou a soar um bocadinho mais a Bruno Pernadas, depois começou a soar um bocado mais a Cassete [Pirata], depois um bocado mais a Minta [and the Brook Trout]. Então era assim uma mistela de coisas que não soavam verdadeiramente a mim. E eu sentia que era tudo um bocadinho forçado, mas que eram exercícios necessário. E a primeira coisa em que eu senti «é isto», foi uma versão de uma música, que acabou por ficar no Supermarket Joy, que é a “Love Ballad”, que é uma balada dos anos 70 e eu fiz essa versão meio na brincadeira em casa, e quando comecei a fazer essa versão que era uma coisa um bocadinho mais eletrónica, um bocado mais cantora, assumido, um bocado mais aquilo que eu hoje em dia também sou, anos 80, e pensei «é isto, é por aqui». Então foi a partir de uma música de outra pessoa que eu descobri que era por aí que eu queria ir e assim foi.
Tens um plano ou uma ideia de qual o lugar que queres ocupar na música portuguesa?
Não conscientemente. Acho que, naturalmente, ocupo um lugar que era exatamente aquilo que eu queria ocupar, sem saber. Sinto que o lugar que eu ocupo é justo com aquilo que eu sou e tenho pra oferecer. Então acho que isso é o melhor lugar que se pode ter. E aquilo que eu sinto que ocupo eu acho que é um espaço que ainda dá para ser ocupado por mais pessoas, esta ideia de seres mulher e seres líder do teu projecto, e ser compositora, trocar instrumentos, ser produtora do teu trabalho, fazer os teus arranjos, ou seja, estás à frente do teu processo criativo e da tua direcção musical quase inteiramente, se eu puder ter essa referência para mais pessoas e dar confiança a mais mulheres e não só para assumirem estas funções, é uma coisa que me deixaria muito feliz. Eu não sei que lugar é que ocupo para as pessoas todas, mas o lugar que eu sinto que ocupo, da minha janela, eu sinto que é justo porque é exatamente onde eu queria estar. Sinto mesmo uma concretização gigante por ter chegado a este sítio de paz e tranquilidade em conseguir fazer só aquilo que eu gosto. Porque antes eu tinha alguma vergonha de fazer músicas que mostravam que se calhar eu gostava demasiado de Whitney Houston, ou que fossem demasiado anos 80 e tivessem sintetizadores demasiado “pirosos”. E hoje em dia o meu processo criativo é tão livre quanto: «eu vou fazer aquilo que me apetece ouvir a mim só». E tenho a sorte de ser apreciado por pessoas, não é? Há quem não goste, está tudo bem, mas as pessoas que gostam e a quem isto toca, é a melhor coisa do mundo. Portanto fico mesmo coisa por ter chegado a esse sítio.
Como é que é o teu processo de composição? És uma compositora omnipresente que escreve tudo, ou fazes só uns rascunhos e vais tocar com a banda a ver o que sai?
O meu processo começa com uma ideia, gravada no dictafone do telefone, a maior parte das vezes essa ideia vem com uma construção, ou seja, quando eu penso numa ideia para uma música ou quando ela surge, a ideia vai-se desenvolvendo ao longo dos dias, não vou logo para o piano nem para nenhum instrumento, de modo geral a ideia fica aqui a ruminar dentro da cabeça e só quando ela está um bocadinho mais concreta é que eu passo para o instrumento. E de modo geral ela já vem com harmonia, melodia e groove associado. E vou desenvolvendo, abro uma sessão (eu trabalho no Logic) e vou escrevendo tudo e vou programando tudo. E as minhas demos são altamente OCD [obsessivo-compulsiva], eu faço tudo, desenho as partes de bateria todas, faço a linha de baixo toda, faço mesmo tudo. Quando aquilo passa para a banda, não é que eu lhes peça para copiar aquilo que está lá, mas a ideia é seguir aquilo que está lá porque aquilo está altamente esculpido para funcionar umas coisas com as outras. Portanto, o João Correia [bateria] e o António Quintino [baixo] – que gravam os discos comigo e tocam comigo ao vivo -, a parte deles está desenhada para funcionar daquela maneira. Claro que há liberdade dentro daquilo, mas não é enorme. Mas eu também já desenho as partes ao estilo deles, já não consigo escrever sem pensar nas pessoas que vão tocar isto. Então é isso, as minhas demos já soam quase a música feita e então eu das demos gravo algumas coisas: teclados gravo em casa, alguns coros. Vozes lead, a maior parte das vozes gravo num estúdio, bem gravadas por um bom microfone com uma sala decente. Mas muita coisa fica de casa, tipo teclados, sintetizadores, a programação, vem quase tudo de casa. Portanto eu faço quase tudo sozinha, e amo.
Música de Elevador. De onde veio o título e conceito do disco?
Olha, a ideia inicial deste termo vem de um comentário do YouTube à minha música do Festival da Canção. Essa é a verdade, alguém disse “parece música de elevador” e eu «uau, já não ouvia este termo há tanto tempo», e depois ficou. E na altura disse a brincar alguém «olha, quando fizer o próximo disco que vai ser Música de Elevador», assim como o Supermarket Joy, eu tinha o nome para o disco antes de ter o disco. E não é que eu precise destes conceitos pré-gravar o disco ou pré-compôr, mas são só nomes que eu acho super curiosos. Nada disto é consciente, ou seja eu não fui à procura de uma coisa que parecesse Supermarket Joy. Eu na verdade até queria um nome em inglês outra vez para seguir uma linha, mas gostei tanto de ter Música de Elevador, achei uma coisa tão concreta, na verdade, porque nós quando ouvimos este termo associamos a um estilo de música particular, não é? E acho que a malta hoje em dia, de 15 e 20 anos, já não sabe o que isso é, mas nos anos 80 e 90 era uma coisa muito particular, era o estilo de música muito específico. Portanto, para nós, e acho que para o público que ouve a minha música, isto soa a uma cena e soa a um conceito concreto. Mas mas que também é um conceito que pode não ser isso e pode ser tanta coisa, não é? O próprio espaço, a parte do elevador é uma coisa tão simbólica, não é? A viagem vertical, vários andares, vários ambientes, vários patamares, a música de elevador pode ser tudo e pode não ser nada. E também é uma coisa que me interessa muito porque eu cresci a ouvir esse termo, no início dos anos dos anos 90, quando eu comecei a tomar consciência do que é que as coisas eram e o que é que eram os estilos de música, como é que eles eram tidos e entendidos pelas pessoas. E tudo aquilo que as pessoas chamavam de piroso, música elevador, eu amava! Aquele jazz fusão, às vezes até era jazz mais smooth, bossa nova, eu amava mesmo, a música ambiente, música de lobby de hotel, sempre adorei. Então, eu achei graça a esta desconstrução de aquilo que era tido com a música do elevador, e a música pirosa, e a música easy listening, na verdade muitas dessas coisas que eu cresci a ouvir, eram isso tudo e eram coisas altamente complexas e difíceis de tocar e tocadas por músicos inacreditáveis. Portanto, era esta a brincadeira, porque é que uma coisa que parece fácil de ouvir e que torna as pessoas bem dispostas e que até fica bem como música de fundo tem que ser má e de má qualidade? E eu gosto mesmo que a minha música seja fácil de ouvir e que as pessoas ouçam sem pensar naquilo que estão a ouvir e que a ponham com a música de fundo – amava que a minha música tocasse em elevadores e música de fundo em de restaurantes e de lobbies – e não por causa disso a minha música é má ou fácil. Acho que essas coisas podem existir todas juntas.
E como é que se transforma o elevador – que é um sítio que pode ser desconfortável, estás num prédio alto e apanhas vários desconhecidos pelo caminho, e um cheira mal e o outro não diz bom dia – numa coisa quase sedutora?
Eu acho que a música resolveria isso tudo, esses encontros imediatos e desconfortáveis. Se a música estivesse a tocar de facto – como já não está há imenso tempo, mas há uns anos estava sempre -, isso desapareceu e eu acho que o silêncio ajuda a expôr esse desconforto. Mas eu confesso que adoro, adoro elevadores longos, adoro ver-me ao espelho, adoro a luz, adoro mexer em botões, fico sempre com aquela ansiedadezinha de encontrar um estranho porque tenho muita vontade de rir com silêncios e com pessoas que não conheço de lado nenhum. Mas muita muita muita muita mesmo. E já muitas vezes eu tive ataques de riso altamente constrangedores com pessoas que não conheço lado nenhum que nunca mais vou ver. E então eu acho que uma boa música de elevador seria… serviço público, acho que temos de trazer de volta.
Sobre as letras das canções. Já no outro disco era assim, neste também, há umas em português, outras em inglês, umas com um bocado de cada. Isso sai-te naturalmente quando estás a escrever ou é uma coisa propositada que queres pôr nas canções?
As letras foram feitas desde o início, desde Supermarket Joy, a maioria delas em parceria com a Ana Claudia e com a Beatriz Pessoa. E no Supermarket Joy, eu tinha letras feitas antes de nós passarmos todas para português. E as letras eram inglesas, as letras iniciais. Porque o disco era suposto ter sido feito em inglês, ainda bem que não foi. Mas de alguma forma as minhas as minhas referências musicais, a maioria delas têm sons anglosaxónicos, e as palavras que me surgem nas demos, cada vez menos, ainda são muito em inglês, e há coisas às quais é muito difícil dar a volta. No Supermarket Joy tivemos desafios mesmo específicos, dar a volta a “baby baby” e “you”, que são sons que são difíceis de traduzir, porque aqui a questão é que quando eu faço músicas – e neste disco fui muito mais aberta do que no Supermarket Joy, porque ali tava tudo mesmo esculpido – eu de alguma forma preciso que numa parte ou noutra aquilo seja um U, ou seja um I, porque eu quero que aquilo soe assim, portanto existe liberdade para nós criarmos músicas, mas nalgumas zonas a liberdade é super reduzida porque eu preciso que aquilo soe de certa forma, e aí eu sou um bocadinho chata porque quero mesmo vingar aquilo que eu tinha imaginado. Dessa forma, há sons em português que são limitados – e se nós pensarmos na forma que a malta em inglês tem de escrever, que é tudo livre, ou a forma como a malta em brasileiro escreve letras, que é tudo altamente livre e se não existe tu crias, se não existe tu mudas, inventas. Então a nossa premissa a escrever letras tem sido sempre essa: «mas isto não existe. E então? Bora inventar palavras», e no outro disco nós inventamos palavras que não existem, soam a coisas mas não são de facto nada. E neste disco continuamos essa viagem, monte de vezes nós pomos palavras a brincar nas letras, só para preencher, que às tantas ficam só porque têm muita graça e eu gosto desta ideia de não ser assim tão sério, a música já é um bocado complexa às vezes, a minha forma de cantar já é um bocado séria às vezes, por que não tornar isto um bocadinho mais leve com letras brincalhonas, não é? E nem todas são brincalhonas, mas têm sempre um quê de cómico e de alguém que se leva a sério só até certo ponto, e que deixa um espaço para rir e para tornar as coisas levezinhas, e isso agrada-me porque acho que torna tudo um bocadinho mais bem disposto.