É quando os fantasmas dançam, que a consciência se apura. E elas estão aí, soltas e livres, as assombrações de Beth Orton. As dela, mas também as nossas.
Dá pelo nome de The Ground Above e é um trabalho que deixa marcas. Há nele um tremor intenso que impressiona, que desgasta, mas que purifica, no fim. Há oito pedras no meio do caminho para superar. Resta saber se estamos todos preparados para esse montanhismo emocional. De tão forte, é até possível que cause reações físicas: lágrimas, alterações do rítmico cardíaco, respiração ofegante. Pode doer muito, mas não mata. A tranquilidade da alma é um bem primordial, e talvez este seja o percurso que nos leva a esse lugar.
Dando continuidade à sonoridade deslumbrante que iniciou em Weather Alive (2022), em que das teclas do piano nasceram pequenos fantasmas melodiosos dispostos a não nos largarem mais, com The Ground Above Beth Orton deu um passo em frente, desviando-se da folktronica que soube concretizar nos inícios do seu percurso, indo agora buscar às abstrações do jazz, da eletrónica e de uma certa linguagem pop o ambiente desejado para passar a sua mensagem. Há momentos em que diferentes estados de espírito parecem moldar-se perfeitamente aos ambientes sonoros, adaptando-se de forma triunfante como se, no puzzle mais difícil de montar, se chegasse à última peça do cenário pretendido, encaixando-a no lugar exato para que tudo, finalmente, possa fazer sentido. Vozes, texturas, fragmentos de fragilidade e de inquietação surgem no epicentro das instrumentações, que parecem livres e improvisadas, mas que são montadas, de forma segura, a régua e esquadro.
Importa dizer que este é um disco onde a palavra tem peso. Os oito temas que dele fazem parte revelam isso mesmo, sem quaisquer margens para dúvidas. Na canção inicial, a mais longa de todo o trabalho, elas, as palavras, levam-nos a perceber que este é um tempo melhor do que o anterior, mesmo que o sofrimento e a dor sejam as linhas com que ainda se costura a vida e onde ainda se luta para nos mantermos à tona da existência. E são bonitas as palavras, os versos: “I sing in choirs of the gods / Every time I think of what got lost / I’m euphoric as a war / When I know who it is I’m fighting for”. Agora, o momento é o de voltar à superfície para sarar feridas e permanecer de peito erguido. Em “Before I Knew” percebemos que tudo tem um caminho, e que o processo de perceber a dor é anterior ao da consciência da mesma, como se o corpo fosse capaz de entender o que nele se passa, antes da mente se ocupar desse desígnio. O verso “I’ve been here before I knew how” não engana. Já em “Cigarette Curls”, a imagem das espirais de fumo que parecem fugir da ponta do cigarro são bem a metáfora de certos momentos da vida que desaparecem sem bem entendemos a razão, sem nos darmos conta dessa dissipação. Todo este arranque do álbum é soturno, denso, cinematograficamente romântico, embora cerzido pela beleza dos sons, por vezes melancólicos e esmagadores.
The Grond Above é um disco que exige tempo de audição. É um compêndio, um dicionário onde a procura nos leva a boas surpresas. A sua linguagem poética promove o que a poesia sempre faz: ela esconde o que quer verdadeiramente revelar, e é nesse jogo de quarto escuro (o ambiente sombrio e abafado ajuda a que assim seja) que nos movemos em conjunto: as canções, as melodias sinuosas, a voz de Beth Orton, os arranjos, mas também nós, os nossos corações que palpitam, a respiração que parece, por vezes, falhar, o olhar perdido em busca do foco que nos segure e acalme.
Podíamos ainda referir o olhar particular sobre a mortalidade presente em “Celestial Light” ou a saudade que parece estar cada vez mais próxima de existir em “I’ll Miss You”, numa espécie de luto antecipado que adivinha a perda que aí vem, mas o que importa mesmo registar neste final de texto é que The Ground Above merece ser tratado com carinho, embalado com apreço nos braços da nossa consciência, até porque não vale a pena ter dúvidas sobre o que dizemos, em jeito de ideia final: talvez este seja o álbum mais pessoal de Beth Orton, mas ele também é sobre nós. Exatamente isso, sobre todos nós e sobre as nossas particulares fragilidades.