Beck regressa com Ride Lonesome, uma receita atualizada da fina arte da nostalgia.
É como se estivéssemos fechados numa sala ampla, sabendo que lá fora o tempo tem a cinza dos dias maus, a aragem sinistra de um conto romântico, e não queremos sair de perto da lareira, por ser esse o lugar mais confortável do mundo. Talvez chovam gotas de chuva densa que não desmentem a chegada lenta de um longo inverno. Tudo isto lá fora, mas ainda mais dentro de nós. E, passado um bom bocado, fechamos os olhos para ver e sentir melhor tudo isto. Toda esta pintura não é uma natureza morta, antes o prenúncio carregado do que a passagem do tempo pode fazer connosco. Somos seres solitários à procura da nossa própria companhia. É bom sabermos que a solidão tem um preço, e que a inevitável viagem até chegarmos a ela pode demorar mais ou menos tempo, conforme o que trazemos na bagagem da vida. No entanto, como bem sabemos de outras paragens sonoras, há sempre uma luz que nunca se apaga, não é verdade? Cuidemos dela, então.
A exigência é uma medida sem tamanho. Varia muito, e nessa questão métrica de gostos, cada um tem a sua. Beck não nos dá descanso sobre essa matéria, levando-nos a encolher, distender e calibrar apreços pelos trabalhos produzidos desde que o mundo o reconheceu como um extraordinário loser, embora já se mexesse por idênticos caminhos desde finais dos anos 80. Agora, há cerca de 7 anos que não nos dava mais de duas mãos cheias de originais. São novos, a estrear, mas parecem umbilicalmente ligados a Sea Change. Regressa, polindo essa golden age de inesquecível memória.
Ride Lonesome é um trabalho de artesão. Um trabalho que transpira sons de tranquilidade absoluta. Beck talvez tenha entendido que já passeou por demasiadas mutações e que chegou a hora de se refugiar num mar que já foi de mudança, mas que agora é chão, sem ondas que o agitem desnecessariamente. Voltou àquela voz que parece fazer eco em si mesma (não conseguimos explicar de outra forma em relação ao que pretendemos dizer), cantando palavras de alguma perda, abandono, dor, tristeza, celestialidade. Sim, celestialidade, pois parece haver em Ride Lonesome algo de divino, talvez vindo dos recursos acústicos que dão forma à base das canções. Lucky Luke, o lonesome cowboy por excelência, poderia fazer deste álbum a sua banda sonora de cabeceira nos meses mais duros e sombrios do velho oeste.
“Ride Lonesome”, faixa que emprestou o título ao álbum, é a mais próxima (em beleza, grandeza, sumptuosidade) de “The Golden Age”, tema de abertura do soberbo Sea Change. Ambos os discos, o de agora e o de 2002, curiosamente ambos lançados em setembro, partilham o mesmo adn. Isso parece-nos inegável. Desolação, corações partidos e solidão são ingredientes comuns. No entanto, em Sea Change há um pouco mais de brilho, os ambientes sonoros são um pouco mais variados, coisa que não acontece em Ride Lonesome, embora isso não retire mérito ao trabalho em análise. Não há um tema com a fluidez e o encanto de “Lost Cause”, por exemplo, talvez a mais perfeita canção que Beck alguma vez fez. Mas não nos enganemos, pois outras há que nos vão segredando encantos e delícias, aos quais ninguém poderá escapar. Citemos algumas: “Run Away”, “Failed Words”, que nos entra pelos ouvidos a lembrar Nick Drake, mas também “For Your Love” (tão doce e épica, mas sem se colocar em bicos de pés para atingir esse efeito), “It Ends Right Here” (talvez o prémio do mais belo tema do álbum lhe seja devido) e a já mencionada “Ride Lonesome”, pois claro. Tudo combinado para se chegar a uma imensa, tímida mas intensa festa nostálgica em estado de quietude…
Agora que pouco falta para entrarmos no último trimestre do ano, este recentíssimo trabalho de Beck pode bem estar na pole position em muitas das listas dos melhores álbuns de 2026. Seria justo se assim fosse, e estamos em crer que assim será, pelo menos por aqui, entre os sempre atentos ouvidos altamontianos. Até lá, se é verdade que Beck parece tão solitário e tão necessitado de companhia, não hesitemos um único segundo, e façamos o que o coração exige, quando escutamos Ride Lonesome: encostemo-nos a ele, tranquila e deliciosamente.