Um disco de protesto feito de ternura, ironia e belas canções. Quem diria que derrubar o capitalismo podia ser tão bonito?
Tanto a norte-americana Carsie Blanton como o duo canadiano que compõe os The Burning Hell (Mathias Kom e Ariel Sharratt) já andam nestas lides há alguns anos, embora sempre ocupando uma franja da música alternativa, um daqueles segredos estimados e bem guardados. If you know, you know. E nós, diga-se, não sabíamos grande coisa.
Ambos fazem um híbrido de pop, rock e folk, procurando aquele ponto onde melodias cativantes se cruzam com letras inteligentes e carregadas de um humor muito próprio. Se pegarmos nessa fórmula e a aplicarmos ao estado actual do mundo, nomeadamente nos Estados Unidos, estamos perante algo bastante promissor.
Carsie e os Burning Hell conheceram-se na estrada quando tocaram nos mesmos eventos, e rapidamente perceberam que andavam à procura da mesma coisa e tinham uma linguagem comum. Ficou a promessa de fazerem algo juntos, e esse algo é este delicioso Everything is Great.
Para entender este disco, basta fazer duas coisas. A primeira é olhar para a excelente capa. Aí, as letras cor de rosa que dão nome ao álbum surgem por cima de um pano de fundo composto por um cenário apocalíptico ocupado pelas figuras sorridentes de alguns dos maiores responsáveis pelo estado do mundo, de Farage aos tech bros, ditadores pequenos e grandes, exploradores de territórios e de pessoas. Há por ali algumas mulheres, mas poucas, porque os tempos são para alfa males inseguros, naturalmente. Por cima de tudo, uma variedade de aviões de guerra, que prometem acabar com tudo enquanto os exploradores contam o dinheiro que não poderão levar para a campa.
A segunda coisa a fazer é ouvir a primeira faixa, com o mesmo nome do disco. Aí, Carsie vai conversando com Mathias tentando convencê-lo que tudo está óptimo. Tudo está óptimo apesar de o presidente ter enlouquecido, de andar a bombardear meio mundo, de manifestantes pacíficos estarem a ser mortos na rua, apesar de o poder ter perdido qualquer vergonha e já nem tentar fingir que está a cumprir a lei. É uma balada tranquila, quase um singalong à fogueira, uma espécie de riso nervoso enquanto tentamos não ter um severo esgotamento emocional.
Essa canção traz a chave de todo este delicioso e importante trabalho. É uma declaração de intenções e de posições, de gente que vê, chocada, para onde estamos a caminhar, e que não sabe exactamente o que fazer, tendo de levantar-se todos os dias e continuar esta pantomina de normalidade a que chamamos o dia a dia. É uma espécie de união de nerds, de gente que leu livros, viu filmes e acredita que a solidariedade, a compreensão e, no fim, o amor, são a única solução para todos estes sarilhos. São liberal snowflakes, Deus os proteja e guarde, e ainda bem.
Todas as 13 canções do disco são acessíveis e catchy, mesmo que as fabulosas letras estejam à frente de tudo. Este não é um disco severo de folk de intervenção; é um álbum pop que usa as armas do protesto e da subversão enquanto nos faz mexer os pezinhos.
Depois desse arranque sublime, “Peace & Freedom” acelera o ritmo numa canção que vai elencando todos os milhões e ziliões de mísseis que os EUA têm e as diferentes formas como podem ser usados para matar toda a gente, numa mensagem irónica acerca da violência política.
Segue-se “Stafford Beer”, em que uma voz que parece de um dos Marretas se vai queixando do estado do mundo. Mas Stafford não é um animal fofinho, é o nome do filósofo inglês Anthony Strafford Beer que se tornou conhecido por explorar uma teoria muito simples: “o propósito de um sistema é o que faz”. Pegando neste pensamento, Carsie e a sua contraparte vão falando da escola, do capitalismo, das empresas, fazendo a pergunta: se estas são as consequências do que fazem, a exclusão, a segregação, a acumulação de riqueza, se calhar é esse o seu propósito.
“Price of Eggs” lembra um musical ao estilo de Sweeney Todd com toques de Tom Waits, que parte do aumento do custo de vida para perguntar o que vamos fazer acerca disso? A resposta é denunciar, sabotar, lutar, e ir atrás dos que enriquecem à custa dos males do mundo.
A mesma mensagem surge em “Private Equity”, com histórias de negócios comprados, pessoas despedidas, serviços depauperados, tudo em nome do grande e poderoso dólar, ao som de uma bonita e singela balada.
“Fascists are good” é outro tema de grande destaque. Apenas guitarra acústica, as vozes de Carsie e Mathias, enumerando todas as coisas nas quais os fascistas são bons, desde concordarem uns com os outros a terem certezas absolutas sobre tudo e mais alguma coisa. Para terminar com as palavras:
“Me, I’m a mess
I stumble and stutter
there’s lots that I’m never quite sure about,
but I’m sure I’m no fascist
and that’s all that matters
cause fascists are best when they’re under the ground“.
“Hoist the guillotine” é, adivinharam, sobre fazer com os tech bros, os crypto bros, os alfa males e os bilionários sem escrúpulos o que a revolução francesa fez com os opressores de então. Uma canção upbeat que fala de uma “cavalaria de nerds” em busca do sangue de Elon Musk e de Zuckerberg, identificados pelo nome e ao som de uma música bem disposta.
“Canadian flag” é uma vinheta curta e esparsa, falando sobre os perigos do nacionalismo, quando um grupo de escoteiros perdido na neve e em risco de hipotermia toma a decisão de se aquecer ao queimar alguns deles, tudo para não ter de queimar a bandeira.
Seguem-se “Live, laugh, loot” e “Live, laugh, love”, um díptico. A primeira fala de sabotagem aos ricos, começando por causar danos a qualquer Tesla que se encontre pelo caminho, enquanto a segunda é a canção menos irónica do disco, uma bonita chamada à acção, que fala de união com o objectivo de nos apoiarmos uns aos outros, e claro, derrubar o capitalismo.
Entramos na reta final de Everything is Great com a terna e deliciosa “Minor characters”, uma polaroid de um casal que se retira para um final de dia na praia, com uma garrafa de vinho, depois de um dia de protestos. “The war to end all wars” fala de um cenário de guerra civil em 2033, quando os cidadãos perceberem que o inimigo não é externo nem o estrangeiro pobre, mas aqueles que nos oprimem.
“Weary arms”, com os seus mais de quatro minutos, é a canção mais longa do disco e fecha o trabalho com uma balada que conta a história de um vendedor de armas desempregado, quando finalmente a loucura acabar.
Há uma frase em “Minor characters” que ilustra o estado de espírito deste trabalho, quando um dos cantores está preocupado com as milícias que caçam os manifestantes e a resposta é um simples: “they can’t shoot us when we’re dancing this fast“. Este é o delicado ponto de equilíbrio de Everything is great. Podem tirar-nos muita coisa, mas não nos podem tirar a música, a cultura, o amor.
Até nos poderiam, no limite tirar isso tudo e até a vida, mas ganharíamos sempre. Simplesmente porque “I’m sure I’m no fascist, and that’s all that matters“.
Everything is Great é um disco de protesto como há poucos, divertido, bonito e muito terno. E, na sua simplicidade, tem aqui hinos com fartura, tão úteis para levar para a rua como para nos escondermos no nosso quarto à espera que a loucura finalmente cesse.
Há um mundo inteiro de gente que quer a paz e a fraternidade. E aqui tem uma belíssima banda sonora.