Mac DeMarco voltou a Portugal pela primeira vez em 10 anos, com dois concertos esgotadíssimos no Lisboa Ao Vivo, nos dias 20 e 21 de setembro. Veio apresentar Guitar, o seu mais recente álbum, mas também percorrer a restante discografia e celebrar a carreira que construiu na última década e que o estabeleceu como um dos nomes mais destacados do indie.
A última paragem da tour internacional de Guitar (2025) foi Lisboa, com duas noites esgotadas. O músico e produtor canadiano já tinha passado por Paredes de Coura, em 2014, pelo Primavera Sound, em 2015, e pelo Super Bock Super Rock, em 2016, mas, para muitos fãs, esta foi a primeira oportunidade de ouvirem Mac DeMarco ao vivo. De facto, o entusiasmo colectivo era muito e fazia-se sentir. Conseguir bilhetes já tinha sido um rebuliço inesperado e parece que os onze meses de espera até aos concertos, porque a notícia chegou-nos em outubro do ano passado, foram acumulando tensão e expectativa, que deixou toda a gente numa inquietação fervilhante. Há muito tempo que eu própria não ia a um concerto com tanta curiosidade e vontade e talvez por isso consiga perdoar DeMarco por não passar por terras lusas há dez anos.
A romagem ao LAV era visível desde longe e tinha encontros de amigos pelo caminho. Lá dentro, a multidão devota ia ficando com cada vez menos espaço entre si, sobretudo com o aproximar do fim da primeira parte. Esse doce concerto ficou a cargo de Vicky Farewell, multi-instrumentista indie pop californiana, editada pela label de DeMarco, Mac’s Record Label. O seu bedroom pop etéreo aqueceu o palco e fez companhia à plateia que se ia compondo há horas, mesmo antes de as portas abrirem às 20h. Farewell, simpática e grata pela atenção do público, despertou logo a boa-disposição deste, que marcaria o resto da noite.
Mac DeMarco entrou em palco sorridente na segunda data em Lisboa. “For the First Time”, do disco This Old Dog (2017), abriu as hostilidades e fez logo uma festa. O público, fiel, pôde mostrar, desde logo, que tinha as letras bem sabidas; Mac, descontraído, respondeu com uma coreografia flutuante e sem método que marcaria toda a noite. Imediatamente a seguir, “Sweeter”, do novo disco, e “On the Level”, do disco de 2017 novamente, acalmaram os ânimos. Toda a setlist, que foi a quase toda a discografia, seguiu esta lógica: celebrações entusiasmadas de hinos indie intercaladas com faixas mais recentes, e/ou menos acarinhadas pelo público, que amenizavam a festa abruptamente criada e brevemente terminada. Assim, os fan favs revelaram-se óbvios e contrastaram sempre com as faixas a que a plateia apenas reagia com o abanar da cabeça e os olhos fechados — como “20191009 I Like Her”, de One Wayne G (2023) ou “Home” (2025).
Homem de poucas palavras e muita música, DeMarco estava visivelmente divertido e despreocupadamente mergulhado na sua cena. Interagiu muito com o público ao longo de todo o concerto, com danças aleatórias, esgares e sorrisos abertos, com instrumentos por todo o lado e a ocupação de todo o palco a todo o momento. Foi uma noite cheia. Cheia de canções que marcaram o coming of age de tanta gente, cheia de alegria colectiva, cheia de emoções fortes, daquelas que só uma discografia tão profícua e melancólica desperta nos recantos do cérebro e que nos faz sentir tantas coisas ao mesmo tempo.
“Salad Days”, do disco homónimo (2014), “No Other Heart” de Another One (2015), “Still Beating” (2017) e “All of Our Yesterdays”, de Here Comes the Cowboy (2019), foram os momentos que mais vozes fizeram ouvir e que mais telemóveis levantaram. Afinal, estes são momentos raros para o público português. “Passing Out Pieces” foi uma festa luminosa, com o microfone a ser balançado, agarrado pelo fio, por todo o palco, “Heart to Heart” acompanhada por palmas disciplinadas e “Ode to Viceroy” muito popular. “This Old Dog” também teve direito a coro em uníssono e à luz da lanterna dos telefones e, em “One More Love Song / Another One”, Mac fez o pino e a plateia encheu todo o lugar.
Foi sempre uma festa, mesmo nas faixas mais morninhas, mas o ponto alto do concerto foi, sem dúvida, “Freaking Out the Neighborhood”. A acalmia de “Rooster”, mais uma faixa de Guitar que ninguém estava ali para ouvir (desculpa, Mac) foi quebrada com um mosh embrionário generalizado. Fomos mandados baixar, saltámos efusivamente durante 3 minutos e cantámos (berrámos) todas as guitarras. Depois, o entusiasmo manteve-se em “Moonlight on the River” e “Chamber of Reflection”, em que o microfone outrora voador, era atirado ao chão. Uma ovação ensurdecedora trouxe o encore, em que uma guitarra foi atirada à plateia durante “My Kind of Woman” e em que “Human Nature”, de Michael Jackson, nos deu um Mac muito desinibido e completamente entregue.
O LAV é uma sala que sublinha muito o estar cheia — talvez pela disposição horizontal do palco, que é incomum, ou porque o palco é baixo e facilmente ficamos a ver só cabeças antes de vermos os artistas. É um espaço contido, onde a multidão se torna confortável e em que, com o som impecável, como era o caso, se cria um ambiente seguro e estanque do que nos rodeia. A noite de segunda-feira foi reconfortante porque havia pouco espaço e a audiência estava calorosa e muito feliz. Isso sente-se e molda a experiência de qualquer concerto. Mac DeMarco trouxe a Lisboa duas horas inteiras em que toda a gente na plateia voltou a ter 17 anos e esses concertos são raros e preciosos. Foi uma noite memorável e muito especial para muitos — que sorte a de quem estava lá para ver!
Fotografias por Gonçalo Nogueira














