Há um quorum tão sólido nas preferências dos Sunday Mourners, que é absolutamente legítimo projectar dessa coesão o surgimento de novos trabalhos, tão bons ou melhores, que A-Rhythm Absolute. Caros entusiastas, temos banda!
Há pouco tempo, por mero acaso, enquanto andava a deambular pelas inutilidades sórdidas do Instagram, esbarrei com um pequeno vídeo do CBGB (é por este e por outros que continuo a tolerar a descarga diária de lixo, proveniente deste canal que tão poucas vezes nos eleva). Uma curta viagem animada por IA pelos calabouços do icónico clube punk rock nova-iorquino de East Village. A câmara vai explorando os recantos do estabelecimento, numa espécie de visita guiada a lendas que lá fizeram as suas primeiras aparições ao vivo. O desfile começa, previsivelmente, por Joey Ramone. Após o augusto início de périplo, seguem-se figuras proeminentes como Tom Verlaine, Debbie Harry, Patti Smith, Richard Hell, David Byrne e Johnny Ramone. Todos muito novinhos, sem rugas e com olhar vivaço. Uma autêntica viagem no tempo.
Aberto em 1973 e encerrado em 2006, o CBGB permitiu que inúmeras bandas pudessem revelar o seu valor na história da música rock moderna. E estou perfeitamente convencido de que, a estar aberto nos dias de hoje, Hilly Kristal tudo faria para continuar a levar projectos emergentes de grande qualidade ao seu clube. Sem grandes hesitações, não tenho qualquer pudor em afirmar que os Sunday Mourners teriam fortes probabilidades de constar no alinhamento dos próximos cartazes. Certamente que já não iríamos submergir numa espessa nuvem de fumo, gerada por tabaco industrializado de marcas clássicas americanas, misturada com o aroma da erva em combustão. Não iríamos com certeza sentir o cheiro a cerveja choca no chão, imundo e peganhento, misturado com o fedor pestilento das latrinas, tal como, a determinada altura, Patti Smith descreveu as suas casas de banho. Claro que, se fosse hoje, nenhuma inspecção sanitária permitiria um abandalho dessa dimensão. Se hoje fôssemos ao CBGB ver um concerto dos Sunday Mourners, nem sequer os vapes provavelmente seriam autorizados. Ora, se as nossas casas se deslocam, em média, dependendo do ponto do globo e da influência das placas tectónicas adjacentes, cerca de 2 a 10 cm por ano, ainda que o CBGB pudesse estar dois metros mais à esquerda ou mais à direita, não seria a mesma coisa. O que antes era uma zona suja e degradada da cidade transformou-se num bairro moderno, com condomínios de luxo, galerias de arte e hotéis sofisticados. Adeus porcaria, welcome Bowery Quartier real estate speculation.
Acompanhando a mudança do curso dos acontecimentos, A-Rhythm Absolute é também um disco mais limpo e arejado que os congéneres dos finais de 70 e inícios de 80. Claro que é inegável a influência activa de bandas como Television, Talking Heads ou Velvet Underground na construção dos temas de estreia dos californianos Sunday Mourners. Sim, não são precursores de um novo género, se é que ainda dá para subdividir ainda mais as dezenas de géneros existentes. Mas também não estamos perante um débil exercício de plágio ordinário. Há uma honestidade tão pura na forma como o quarteto se entrega no seu disco de estreia, que em A-Rhythm Absolute tudo sabe a recém-nascido e a novidade inaudita! Aqui, como em tantos outros casos de sucesso, a repetição é bem-vinda. Afinal de contas, trata-se apenas de replicar um género. Um género limitado ao que uma voz, uma guitarra, um baixo, uma bateria, um ocasional piano e um camuflado violoncelo podem fazer por um grupo de jovens criativos, que anseiam partilhar com o público as suas ideações e temores. A visão da sociedade que os rodeia, as interrogações relacionais que o amor e a entrega nos colocam diariamente, mas sobretudo as dúvidas sobre a imprevisibilidade e tensão ao redor da vida moderna.
Quando escutei pela primeira vez o tema “Love Observations”, lembro-me perfeitamente de ter comentado comigo mesmo: “Oh, que caraças! Lá está mais uma daquelas incríveis bandas americanas proto-punk de finais de 70 que me passou ao lado!” Mas como?! Claro que recorri de imediato à aplicação que mais uso no telemóvel, logo a seguir ao Spotify, como é óbvio. Estava tudo certo. A imagem de uma ilustração a preto e branco com um lettering art-punk em total sintonia com o conteúdo musical. Mas qual não é o meu espanto quando me deparo com o ano de lançamento do tema. Dois mil e vinte e seis! Será que vi bem? E, em acto contínuo, desatei a bisbilhotar que raio de banda era esta que soava a velho mas sabia a novo. Parecia um rato de biblioteca a rapar tudo o que me aparecia à frente. Daí até me afeiçoar rapidamente ao resto do álbum foi um instante.
Ao contrário do que tudo levava a crer, A-Rhythm Absolute revelou-se um disco menos pop e sha la la que “Love Observations”, estando recheado de temas distintos na sua forma e sonoridade. A abrir o álbum, a inteligente sátira de “Careers In Acting”, impregnada de urgência social, guitarras angulares e voz enfurecida contra o vazio de ideais da Geração Z. Em tom biográfico, Quinn A. Robinson confidencia-nos “I found heaven in myself”, para de seguida se entregar, com a ajuda da sua entourage, a extremosas confissões amorosas. São doze minutos que escalam em direcção a um pináculo shoegaze, de elevada voltagem, convertidos logo a seguir em “11,000 Volts”. Seguimos rumo a “Love Observations” por entre jardins e choros, constantemente embrenhados nos duelos de guitarra entre Quinn e Maxwell, que emprestam uma textura artesanal e analógica ao disco. Mais dois temas enérgicos e atingimos o final do registo. Em tom de questão filosófica existencial, a banda termina o seu primeiro longa-duração aprisionada numa constatação que tem tanto de admirável como de assustador. Costuma-se dizer que o melhor da festa é a véspera. Afinal, o que é que sobra do sonho realizado? O que é que existe para lá da idealização? Onde raio é que nos encaixamos após o vazio do sonho tornado realidade? Em grande medida, o lançamento deste disco revelou-se, para os próprios Sunday Mourners, a realização de um grande sonho. Um sonho que se concretizou e que tanto deve ter exigido dos quatro em termos emocionais e profissionais. Então, e agora, o que irá sobrar deste passo gigante, deste milagre verdadeiro? Ficarão os Sunday Mourners reféns da sua própria magia? “What happens when your dreams come true?”
Uma coisa é certa: este magnífico álbum de estreia nada deixa a desejar. Prova disso foi o convite feito pelos Franz Ferdinand para os Sunday Mourners abrirem os seus concertos na tournée americana. A-Rhythm Absolute tem todos os condimentos no sítio certo e com as quantidades ideais, sendo o seu resultado uma entrada viciante e refinada, capaz de deixar água na boca e vontade de repetir à discrição. Bem produzido, bem composto e com letras inteligentes. O que é que querem mais? Este vai constar na lista dos meus 10 álbuns de 2026! Ah vai, vai…