Nova noite magnífica no Ageas Cooljazz. Bia Maria trouxe-nos uma tristeza bonita ao coração, e o mago David Byrne lembrou-nos que a Terra é o nosso paraíso em perigo.
Muito se escreveu já sobre Bia Maria e a sua visão artística próxima do fado, da música popular portuguesa e da bossa nova. Mas a avaliar pelo concerto de ontem, deixou a bossa brasileira de fora: a música popular de veia mais refinada ganhou uma peculiar fadista, ou o fado mais seleto ganhou uma artista da música popular portuguesa mais invulgar? E a resposta, afinal, talvez resida numa terceira hipótese, para além das duas redigidas. As gavetas onde colocar os sons não possuem chave, como se sabe. Mesmo que assim fosse, haveria de haver forma dessas notas escaparem por entre as frinchas de qualquer catalogação. Por isso, abramos o que não pode ser fechado e fiquemos com o que é bom, com o que se sente, com o que nos toca de forma mais ou menos profunda. E é de profundidade que aqui se estima e fala, uma vez que Bia Maria tem, na subtileza dos seus temas, camadas de minúcias que acentuam o que lhe vai na alma. Na verdade, sendo nós também filhos da música popular e do fado, a alma da cantora roça na nossa, insinuando uma espécie de namoro sonoro bom, proveitoso para quem dá e para quem recebe. A comunhão tudo resolve e o Altamont sabe disso há muito tempo, uma vez que Bia Maria já teve connosco o merecido destaque, aquando do lançamento do seu disco Qualquer Um Pode Cantar, como volta a ter agora. A melancolia dela deu um bom concerto. A tristeza das canções dela fez-nos encontrar “Lenços de Papel” que não pensávamos voltar a dar uso. Disse “bom concerto”, mas corrijo (sem emendar), antes acrescentando: foi cheio, e lotou-nos todos os espaços que sempre temos para os bons sentimentos.
Os nossos ouvidos e olhos queriam ouvir e ver David Byrne, que naquele mesmo local esteve há cerca de oito anos, apresentando o seu trabalho de então, American Utopia. Ontem, os nossos olhos viram um concerto montado como se fosse um enorme plano-sequência, um longo take, como se costuma dizer em linguagem cinematográfica. É assim que ele está montado, é isso que lhe confere um caráter extraordinário. Não é a primeira vez que Byrne opta por algo semelhante, mas desta vez pareceu-nos levar essa ideia de one shot de maneira mais conseguida. Mas há mais.
Aqueles que estiveram bem atentos ao concerto de David Byrne, perceberam facilmente que o músico transformou o palco num altar poético de comunhão e consciência pelo nosso planeta. É o único que temos, e ainda vai sendo o nosso paraíso. Essa mensagem surge logo de início, na belíssima introdução do espetáculo, através da icónica “Heaven”.
A nova digressão de David Byrne parece querer desenhar em palco um espaço despido e sem amarras. Tudo parece pobre, minimalista, uma casa (um palco) vazio de quaisquer adereços. Totalmente livre, um espaço aberto onde todos sabem onde pisar e o que fazer. Nele, os músicos movem-se em plenitude, como uma tribo nómada que carrega a sua própria pulsação rítmica. A cenografia ganha uma força visual arrebatadora, através de projeções de vídeos em alta definição. Estas imagens, como referimos, transformam o concerto num manifesto lírico de amor à nossa frágil casa planetária, mas também à mística urbana da cidade de Nova Iorque, back in the days.
O pulsar da metrópole americana e a urgência ecológica fundem-se em vários temas, como ”Life During Wartime”, por exemplo. As projeções de arranha-céus cinzentos e ruas geométricas contrastam com a explosão humana em palco. Parece a metáfora de uma nova e mais livre forma de habitar uma cidade que, de tão gigante e colossal, aprisiona. É, portanto, a arte que liberta, que permite ao Homem humanizar os espaços que habita, tanto na geografia metropolitana, como no palco.
O génio de Byrne ecoa do início ao fim, como em “Slippery People”, que surge como um ritual de união urbana, enquanto a eufórica “And She Was” celebra a levitação poética sobre as paisagens do quotidiano. Ela celebra a liberdade proporcionada pelo LSD, como Byrne referiu contando uma história antiga que o envolveu, junto com uma rapariga da sua turma de então.
Mesmo que possa passar despercebido a quem não tenha outro intuito a não ser cantarolar os hits mais conhecidos, a verdade é que o espetáculo atinge o seu auge ecológico com a ironia pastoral de “(Nothing But) Flowers”. Nele, imagens de florestas a reconquistarem fábricas abandonadas pintam o ecrã. A já mencionada “Heaven” e a comovente “This Must be the Place (Naive Melody)” ecoam como preces melódicas por um refúgio seguro no mundo. E em “Once in a Lifetime”, David Byrne move-se sob o peso de águas “flowing underground”, questionando a nossa própria existência num planeta em mutação.
Mas não só de temas dos magníficos Talking Heads viveu o concerto de ontem. A sua obra a solo expandiu essa mesma narrativa ecológica e cosmopolita. Hinos modernos como “Everybody Laughs” e “Everydoby’s Coming To My House” celebram a cidade como um ecossistema de diversidade e inclusão. Temas como “Like Humans Do”, “What Is The Reason For It?” e “When We Are Singing” ressoam como odes à nossa essência natural e à necessidade orgânica de cuidarmos do que nos rodeia. “Air”, tema que se introduz já na segunda metade do concerto (voltamos aos Talking Heads) funciona como um grito poético pela atmosfera que respiramos, abrindo caminho para o clássico visceral “Psycho Killer”. O concerto encerra de forma apoteótica com “Burning Down the House”, um profundo alerta para a urgência climática global. Tudo isto foi sintetizado por David Byrne, quando lembrou que John Cameron Mitchell referiu que “love and kindness are the most punk things you can do right now”. A razão é simples de entender: o amor e a bondade são as mais verdadeiras formas de resistência no mundo atual.
O que ontem assistimos ficará na memória de todos como um fabuloso concerto, que pode muito bem ter esta leitura que aqui vos deixamos. No entanto, há também outra maneira de entendermos o concerto de David Byrne, igualmente válida, mas também mais simplista: pura diversão, alegria a rodos, a arte de bem entreter uma pequena multidão. A escolha pertencerá sempre a quem a quiser exercer. Nós decidimos assim. De qualquer das formas, uma coisa é certa. Foi fa-bu-lo-so!
Fotografias gentilmente cedidas pela organização




























