Um disco instrumental negro, repetitivo, misterioso e terrivelmente sedutor.
Caterina Barbieri, que já tocou algumas vezes entre nós, nasceu em Itália mas há muito que faz de Berlim a sua casa. Apesar de ainda jovem, é um nome firme entre os mais interessantes da música conceptual/concreta/exploratória, assentando os seus exercícios na manipulação de sintetizadores em busca de um som ambient que não soe a pano de fundo de um gabinete de massagens.
Conheceu o saxofonista norueguês Bendik Giske há uns anos, quando se descobriram mutuamente em palco, num festival. Depois seguiu-se uma residência artística conjunta, uma tour de Barbieri com Giske como convidado, até culminar neste At Source.
E o que dizer deste EP? Como classificar algo tão diferente, tão alienígena, tão marcante, tão distante daquilo que estamos habituados a ouvir? Tentemos.
São apenas quatro músicas, num total de 33 minutos. Assim sendo, como explicar que, no final de cada audição, pareça que estivemos num outro mundo, imersos em sons, sentidos, imagens e uma própria atmosfera diferente? Está aqui o segredo, a forma como as músicas nos envolvem e contaminam, fazendo de At Source uma experiência marcante.
Praticamente sem percussão, a base das músicas são os sintetizadores e as programações de Caterina Barbieri. O estilo-base é minimal e repetitivo, com a longa duração dos temas a permitir que vão surgindo novas e novas camadas, umas sobre as outras, linguagens que se acrescentam, desaparecem e depois ressurgem. Por cima desse caldo primordial, o saxofone de Giske deambula, erra. Ameaçador, repetitivo, nervoso, tornando o ar ainda mais rarefeito e mais especial.
Temos aqui ecos dos sempre presentes Kraftwerk, mas aqui não há estrutura de canção que nos valha. Esta Autobahn também anda, sempre em frente, propulsora, mas o mundo à volta é outro, feito de sombras, mais símbolos que imagens, como num armazém escuro mas interminável, num planeta diferente.
Para disfrutar de At Source é preciso, pelo dito antes, algum hábito e alguma tolerância a sons e a exercícios mais desafiantes, mas este não é um disco difícil de ouvir. É bizarro para os nossos ouvidos contaminados por milhões de horas de pop, mas não é de todo desagradável, antes pelo contrário. É como entrar num novo patamar sonoro, um exercício completamente diferente daquilo a que estamos habituados. O tom geral é soturno e banhado pelo gelo dos sintetizadores, sim, mas há aqui vida, há aqui muita beleza. Há aqui uma espécie de verdade existencial que nos maravilha, ainda que nos possa também assustar.
Ouça-se a forma como a inaugural “Intuiton, Nimbus” se desenrola, repetitiva e aterradora, à nossa frente. Ou como “Impatience, Magma” vai revelando, pouco a pouco, os seus padrões e mantras sonoros, até acabar num deleite quase motorik.
At Source não é para todos, mas todos deveriam abrir a porta e, pelo menos, espreitar lá para dentro. Aqueles que ficarem serão, com toda a certeza, recompensados abundantemente.